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  - Quinta-feira, Setembro 22, 2005

MARCEL NÂO RIMA COM JARDEL




O grande equívoco

É certo que Jardel escreveu a tinta de ouro, muitas das páginas da história recente do futebol português. Os seus golos influenciaram sobremaneira a forma de análise de jogadores de estampa física similares ou de características mais ou menos idênticas. Jardel era um jogador completo de área, que assumia o papel de «solitário» como poucos no mundo. A grande área era o seu espaço por natureza, e fazer golos era para ele, quase que tão vital como respirar. Marcel está sem dúvida alguma, a pagar a factura das reminiscências que os adeptos de futebol, treinador e mesmo companheiros têm, deste tipo de jogador. As diferenças são óbvias, e a factura a ser paga pelo jogador que actua ao serviço da Briosa é demasiadamente pesada.

Marcel é uma finalizador nato. Não podem existir quanto a esse pressuposto qualquer tipo de dúvidas. Em 2003 pelo Coritiba fez 10 golos no Campeonato Paranaense, 2 na Copa do Brasil e 20 golos no Brasileirão. Em 2004 foi campeão pelo Samsung Blue Wings com 12 golos marcados. Veio em Dezembro passado para a Briosa, e ,marcou alguns golos decisivos, que valeram pontos importantes. Não existem hiatos de golos na sua carreira, ou tempos «em que a bola teima em não entrar».

As suas características são contudo diferentes de um «matador» de área. Características futebolísticas, note-se. Observando o seu trajecto como jogador, e a maneira com se encaixou nas equipas por onde passou, facilmente chegamos à conclusão que nunca foi um homem abandonado à sua sorte na frente. Nem é assim que gosta de jogar, diferentemente de Jardel que cumpria exemplarmente, mesmo quando vetado ao abandono na frente de ataque. Todos os títulos conquistados por Marcel, as conquistas a nível individual e os muitos golos marcados, foram fruto de um trabalho de equipa. Equipa, que não joga para um jogador, mas essencialmente para praticar futebol colectivo ofensivo.

No Corítiba, clube brasileiro onde mais brilhou, teve sempre ao seu lado companheiros que lhe facilitavam a manobra ofensiva. Tcheco e Lima nas alas, Edu Salles e mesmo Gelson, fizeram interessantes parelhas com Marcel. Mesmo Adriano, lateral agora ao serviço do Sevilha, serviu este futebol ofensivo na perfeição. Todos eles eram jogadores de colectivo e de grande capacidade técnica individual. Gostavam de dar e de marcar golos. Não existia uma obsessiva vontade de dar a marcar ao Marcel. Mas Marcel marcava… cada vez mais.

Fez também oito jogos ao serviço da Selecção sub-23 Brasileira. Jogou sempre ao lado de Robinho ou de Nênê (Maiorca), nunca vetado a missões ostracistas. Até porque a sua capacidade de cumprir fisicamente em missões defensivas é bastante curta. Não ajudado por companheiros da frente de ataque, torna-se pouco menos que inofensivo. Tem técnica, sabe jogar de trás para a frente, faz óptimos passes a rasgar e um bom remate. Para um jogador da sua estatura, um jogo de cabeça mediano. Todas estas características reunidas, fazem dele um jogador de ataque colectivo, e não um «pistoleiro solitário».

Na Coreia, na K-league, marcou 12 golos e sagrou-se campeão pelo Samsung Blue Wings. Obviamente nunca jogou sozinho na frente de ataque. Fez uma dupla, caracterizada pelos jornalista locais como «terrível e temível» com Nadson. Os dois juntos, fizeram, numa liga que têm em média menos de dois golos por jornada (por jogo), mais golos do que o somatório do total de golos de cinco (!) equipas do mesmo campeonato. Brilharam os dois, Nadson e Marcel. Nunca o ponta-de-lança jogou sozinho na frente de ataque.

Na Briosa a situação é diferente. Marcel é um jogador desacompanhado na frente para o qual as bolas são bombeadas. É sua missão cabecear bolas cruzadas pelos companheiros, ir às bolas de ressalto, fazer recargas, e vir buscar jogo atrás. Um erro crasso, pelo qual pagamos caro. Mesmo alguns jogadores modificaram a sua forma de actuar, na onda desta «jardelização» do Marcel. Esqueçam o Luciano «que vai à linha, flecte para dentro, remata e faz golo…». Este ano temos o Luciano que «vai à linha e centra para se perder mais um golo…». Marcel beneficia pela vontade de golo dos restantes companheiros. Pode paracer ilógico, mas quantas mais vezes Luciano, Fernando, Filipe Teixeira, Paulo Adriano, Ezequias, Nuno Luís e Joeano, rematarem, mais golos fará Marcel.

Terá Marcel companheiros de ataque à altura?

Claramente. O melhor de todos eles, na frente de ataque, é Joeano. Pela complementaridade entre os dois. Pelos espaços que o «2» da Briosa abre, pela vontade e disponibilidade, pelo cumprimento de missões defensivas de ataque e meio-de-campo.
Se nenhum motivo, que os meramente desportivos, condicionarem as opções de Nelo Vingada, Joeano tem claramente lugar ao lado de Marcel, na frente de ataque académica, abdicando de um jogador de meio-terreno (no passado Domingo, Nuno Piloto ou Paulo Adriano) de características mais interiores.

De notar que nunca Nelo Vingada, tomou esta opção. Nem mesmo num jogo de treino ante o Beira-Mar. É tempo de alguém o exigir.

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