Quem somos, afinal?

Que o futebol mudou já todos nos apercebemos. A componente técnica e táctica do treino, o conceito de jogo, os estádios, o público e, igualmente, os nomes dos jogadores. Já não são só «Manueis», «Joaquins» os nomes próprios dos artistas que nos habituámos a aclamar. O advento da lei Bosman, rasgou as fronteiras desportivas que a UEFA a todo o custo queria preservar, sob pena de descaracterização clubista e da falta de ligação entre clubes, jogadores e amantes da bola.
Esta é uma das preocupações de momento da Académica. Um clube que se quer diferente, ligado a tradições profundas que remontam à secular união entre a Universidade, Clube e Cidade. Um clube simbólico que não pode esquecer que a «cabra» da Torre, afinal não é «nome», mas antes forma de apelo, de sino que toca a rebate na união de todos os verdadeiros académicos.
A Académica no actual panorama do futebol português
Todas as realidades têm de ser enquadradas numa determinada perspectiva histórica e social que a rodeiam. Num determinado meio que, podendo não a caracterizar, a cataloga na linha recta da história. O Simplesmente Briosa, lançou-se na pesquisa do futebol de hoje, dia 5 de Dezembro de 2005, na localização geográfica Portugal, para procurar essencialmente caracterizar a Briosa dos nossos dias. O problema que tantas vezes é colocado, da perda de identidade do nosso futebol, do excessivo número de estrangeiros é ou não uma realidade?
Partimos do pressuposto daquilo que consideramos na nossa Associação, dos Homens da Casa, portugueses de gema. Pedro Roma, Paulo Adriano, Nuno Piloto, Vítor Vinha, Sarmento e Eduardo e Ito foram aqueles que consideramos criados na AAC-OAF. Muito embora saibamos que os dois primeiros tiveram um percurso nas camadas jovens, ao serviço de outros clubes.
Analisando, primeiramente, os planteis de todos os clubes portugueses (passaremos depois à analise dos jogos disputados), percebemos facilmente que existe um número quase padrão de jogadores estrangeiros a actuar em clubes nacionais. Futebol Clube do Porto tem 13 estrangeiros, Naval 1º de Maio15, Benfica 12, Sporting 11, Penafiel 14, Guimarães 13, Gil Vicente 11. Com 14,a Académica, não foge descomunalmente à regra padrão dos clubes portugueses. Já quanto a estes «jogadores de vida» de um clube, aqueles que efectivamente transmitem identidade ou apetência pela formação, já o caso muda radicalmente de figura.
Sporting Clube de Portugal é um clube de reconhecido mérito pelo tipo de formação integrada (componente desportiva e psicossociologia) de jovens jogadores, a melhor escola do país em termos de condições físicas de treino e matrizes subjectivas de desenvolvimento. Se contarmos com Custódio, o Sporting tem no seu plantel 8 «jogadores de carreira» no clube, sendo que 3 (maxime 5) são utilizados em cada ronda da Liga. Este é um clube de exemplo. Se observarmos, contudo, os outros clubes do campeonato português, os resultados são arrasadores. A enumeração exaustiva dos números poderá ser algo penosa, compreendemos, mas é importante para que se possa formar uma ideia de globo da tendência actual dos caminhos pisados pelo futebol. O Braga tem 5 jogadores de casa no plantel (sendo que Eduardo é o terceiro guarda-redes e Dantas um júnior que nunca jogou). O Nacional não tem nenhum. O Futebol Clube do Porto tem 5; O Benfica 5, o Vitória de Setúbal 1, o Boavista 3, o Paços de Ferreira 3, o Marítimo 4 (sendo que três, são juniores inscritos no plantel principal que nunca actuaram no principal escalão do campeonato), o Boavista 3, o Gil Vicente 2,Naval e Penafiel 1, Guimarães 4, e Estrela da Amadora 3.
A Académica de Coimbra conta com 7 destes jogadores. Se Paulo Adriano, Pedro Roma, Zé Castro e Nuno Piloto, são presenças assíduas no onze desta época desportiva, também Sarmento o será seguramente, findo Dezembro, e Vítor Vinha tem condições objectivas para se tornar numa opção sólida em futuro breve. Eduardo é materialmente, pela condição de terceiro guarda-redes, aquele que menores hipóteses tem de se afirmar, apesar do seu potencial valor. Ito que fez uma pré-época de especial relevo com o plantel principal e que treina assiduamente com os mais velhos, é igualmente a curto / médio prazo, uma aposta certa. Não contabilizamos o jovem Rui Miguel, com pena nossa, por factores sobejamente conhecidos do mundo académico.
Mas não restam dúvidas de que, por uma ou outra condicionante, a Académica deu estabilidade de evolução e afirmação a alguns atletas e fixou no pretérito ano, uma base sólida de jogadores subidos dos patamares últimos de formação. Mais do que todos os restantes clubes do campeonato português deste ano, salvo o milionário Sporting (milionário Sporting em aposta de «euros» no futebol jovem e nas condições da Academia) e numa ou noutra perspectiva Futebol Clube do Porto e Benfica. Mas estamos de facto, não que isso nos satisfaça plenamente, – mas satisfaz, que diabo – no grupo da frente do lançamento de jovens para a alta-roda do jogo de futebol na província portuguesa.
Confrontos directos
Não quisemos parar, contudo,na observação dos escalões de formação que directamente se encontram em linha de compatibilidade com os planteis principais. Porque tal poderá constituir resultados erróneos da efectiva apreciação do aproveitamento do jogador português no primeiro escalão de competição. A Académica utilizou, invariavelmente, 6 jogadores portugueses na primeira linha dos titulares. Apenas contra o Setúbal em casa, Penafiel fora e Estrela da Amadora em casa, utilizou 5 portugueses. De TODOS os confrontos na Liga BetandWin deste ano, apenas Benfica, com 8 portugueses (contra 6 da Académica), Boavista com 7 portugueses (contra 6 da Académica), Sporting Clube de Portugal ,6 jogadores portugueses de início, mais um que entrou no decorrer da partida, (contra 6 da Académica) e Estrela da Amadora, com 7 portugueses de início, mais dois que entraram – embora na maioria esmagadora, emprestados – se apresentaram com mais jardineiros deste parque à beira-mar plantado, do que a nossa Associação. Em 13 jornadas, apenas 4 (!) clubes jogaram com mais jogadores portugueses que os Capas Negras. Até o todo poderoso FCP, se apresentou em pleno estádio do Dragão face ao seu público, com menos um português que a Grande Académica. Números reais, que servem de base de lançamento a exercícios de racionalidade.
Futuro?
A aposta ganha da sustentabilidade, está de facto, naqueles que souberam capitalizar o investimento na formação, aproveitando-se das barreiras que a UEFA e FIFA, organismos máximos do futebol europeu e mundial, implementaram nos anos próximos
à saída de jogadores da casa dos clubes mãe, e ao número mínimo de jogadores inscritos provenientes dos escalões de formação. Daqui por um pouco de punhados de anos, quando o futebol e o espectáculo exigirem a fidelização do jogador e do clube (tornando o futebol a todos os níveis mais equilibrado), quem tiver lançado a semente à terra mais cedo, mais cedo também recolherá o produto da colheita. É por isso que consideramos o projecto do Bolão essencial para a boa saúde da Académica. Nos anos em que o futebol se pagará com futebol.



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