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  - Segunda-feira, Abril 24, 2006

O beijo de Judas


Mais uma traição ao jeito da compensação do futebol português. Mais uma pequena farsa, um Auto de Gil Vicente, um beijo histórico de morte. O segundo e terceiro golos, foram carícias de fel, do árbitro da partida e de um jogador que teve a sua paga – porque também foi assim, pago – «à letra». No final do encontro…


Uma oportunidade desperdiçada para conseguir desde já, a manutenção no primeiro escalão do futebol português, ou pelo menos, um maior conforto no enfrentar das últimas jornadas. O 4-3-3 inicial da Académica muito feito pelo meio do terreno e sem alas para dar profundidade ao jogo, esbarrou inevitavelmente na consistente muralha de meio campo adversária. O trio da frente composto por N’Doye, Joeano e Ezequias (este completamente desadaptado às funções de ataque) não dava nem lateralização ao jogo, nem pressionava o sector menos bom dos arsenalistas, a sua muralha defensiva. A incompreensível colocação de Gelson no centro de terreno, depois de em Vila do Conde ter marcado dois golos, plenos de antecipação, frustraram desde logo as esperanças de chegar mais longe, de poder incomodar o guarda-redes contrário.

Apesar de um inicio positivo, apoiado na capacidade ofensiva de transporte de bola do senegalês da Briosa e da combatividade das duas unidades de meio campo, Roberto Brum e Gelson, cedo se percebeu que Nuno Piloto e Ezequias não teriam capacidade para os movimentos das alas. O golo adversário chegou em má altura, por falha de marcação do sector intermédio. A partir desse momento tudo foi mais difícil. Os de fora adoram jogar em contra-ataque e os de negro não tinham outra qualquer possibilidade que não atacar o jogo.


A traição


Começou bem a segunda parte a Académica e logo nos primeiros minutos, já com o 4-4-2 transposto para o tabuleiro de jogo com Gelson e Joeano na frente, o resultado poderia ter funcionado e mudado o jogo. Se na primeira parte Hugo Alcântara e N’Doye foram os que falharam, desta vez foi a barra a impedir o golo que por certo mudaria a história do jogo, naturalmente, se o trio de malvados o deixasse. Logo de seguida, um golo precedido de falta escandalosa sobre Joeano, com um fora de jogo evidente. Acabou , por nesse instante, o jogo. Depois do primeiro beijo de traição, logo de seguida um outro, do rapaz que acabou por ser perseguido no final do jogo…


Análise Individual dos Jogadores:


Pedro Roma – Sofreu 3 golos sem qualquer culpa e evitou outros tantos. O esquema táctico de final de jogo talvez pedisse que o guarda-redes académico subisse um pouco mais no terreno, mas nada que comprometesse o nível da exibição.

Pedro Silva – É um jogador que se moraliza com as incidências do jogo. Joga melhor quando a equipa está por cima, acaba por entrar na toada de marasmo quando as coisas não correm bem. Ontem esteve muito longe do habitual desempenho, mas também nunca foi convenientemente auxiliado pelo companheiro «de direita».

Zé Castro – Esteva mal na marcação, mal no espaço que deixou a Hugo Alcântara para marcar, mal nos lançamentos longos e nas subidas em profundidade. Mas já esteve tantas vezes bem e estará, certamente, nos melhores momentos que ainda hão-de vir que esta exibição não pode contar para a média.


Hugo Alcântara – O melhor do quarteto defensivo neste jogo. Salvou duas iminentes ocasiões de golo e cortou a preceito duas ou três jogadas de perigo. Perdeu em velocidade alguns lances, mas não é especial incumbência sua ser mais forte nesse capítulo. Não é um central puro, de marcação e isso pode explicar a falta de ajuda que poderá ter dado no primeiro golo.

Vítor Vinha – Como se sente mais na equipa, está um pouco menos concentrado e tende já a infiltrar-se nos seus espaços de origem ( o centro de terreno). Perdeu por isso algum posicionamento na linha e nunca deslumbrou, mas tal como Pedro, esteve desapoiado.

Roberto Brum – Impressionante reparar que mesmo com o 0-3 ainda corria, tentava jogar e lutar pelo jogo. Muito colado aos centrais, não aparece nas zonas de transporte atacante e na linha de remate ou cruzamento.

Gelson – Perdeu, mais uma vez uma exibição que poderia até ser positiva, pela sua polivalência. Combateu as batalhas que tinha que lutar a meio de terreno, mas esteve impossibilitado em toda a primeira parte de se chegar à frente. No inicio da segunda metade, já em cunha com Joeano, atirou uma à barra em antecipação. Logo o jogo se havia de transmutar, com o segundo golo do adversário.

Nuno Piloto – Uma nulidade defensiva, atacante, sem posicionamento. Consegue, por certo, fazer muito mas muito melhor. Depois de duas ou três fantásticas exibições de início de época está na hora de se erguer e como Doutor que é, fazer-se ao púlpito e tomar o protagonismo da Académica.

N’Doye – O mais inconformado da Briosa. Tentou fazer tudo o que os outros não conseguiam ou não demonstravam querer fazer. Subiu na ala de Ezequias, transportou jogo pelo meio, cruzou, rematou…mas os efeitos práticos de tanta correria, foram infelizmente, quase nenhuns. Poderia ter marcado um golo que daria a vantagem inaugural aos Capas Negras. E que importante golo seria.

Ezequias – Quando não se sente obrigado a defender, pela posição que ocupa no terreno (médio-esquerdo) não ajuda minimamente o lateral. Como neste jogo também não transportou nem subiu à linha, logo se percebeu que a exibição ficaria muito, mas muito longe do que pode fazer. Apenas um remate a registar.

Joeano – Tentou resolver sozinho, através de remates de muito longe, a falta de apoio ofensivo da equipa. Como o futebol se joga com 11 e não é para gente solitária (chamar-se-ia então gamão…) nada resolveu. Foi abnegado e lutador, como é seu timbre.


Suplentes utilizados –


Serjão – Não ganhou uma bola e parecia que já vinha de 3 maratonas consecutivas. Quando um avançado centro não faz um único remate…

Andrade – Na fase inicial da sua entrada, ainda com o 0-2 posicionou-se no centro de um esquema de três defesas. Depois do descalabro, foi o outro central, perdendo em velocidade, mas dando sempre tudo o que tinha.

Sarmento – Tentou jogar pela linha abrindo o 4-4-2 de início de segundo tempo. Não esteve muito mal, mas também não deslumbrou agarrou-se bem à bola, mas tendia sempre para o centro, afunilando o jogo académico.

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