A mística da celebração do sofrimento!

Ser da Académica tem algo de místico, algo de fado. Se por hipótese a Briosa, para descer de divisão, tivesse de perder por 0-8, então estaríamos certamente ao minuto 89’ a ser goleados por 0-7 e com o adversário a mandar uma bola à trave ao minuto 94’.
Este foi mais um desses jogos, que curiosamente, se resolve ao minuto 78’. Um minuto que decidiu, quase que a permanência dos Negros noutras épocas (vide Taveiro) e que nos colocou, no Estádio Cidade de Coimbra, transformado em palco dramático, por um virtual minuto na segunda liga. O golo, a festa, os anos de vida consumidos por este jogo ninguém nos devolverá, mas também ninguém nos tira. Mais uma vez a festa foi rasgada em tons de emoção dantesca.
A Académica entrou bem na partida manietando o jogo e as acções de centro de terreno do adversário. Colocou Roberto Brum mais avançado no terreno em relação ao posicionamento de Andrade – desta feita pivot defensivo – constitui uma linha de três jogadores mais na frente destes, N’Doye à esquerda, o surpreendente Rui Miguel à direita e Nuno Piloto no apoio ao abandonado Joeano.
As virtudes deste esquema de contenção engendrado pelo Prof Nelo Vingada teve o condão de bloquear o jogo criativo da formação insular, de não permitir lances de perigo provenientes do chavão do «jogo jogado». A segunda parte viria lembrar, que no futebol se marcam golos também, de bola parada...
Os males de toda a época, na primeira metade da segunda parte
A Briosa perdeu no último campeonato inúmeros pontos (e jogos) de bola parada. Um fenómeno, quase tão inexplicável, como arrasador para as pretensões a lutar por outros lugares, neste campeonato. A festa ameaçou transformar-se em pesadelo. A equipa perdia por 0-2 em casa, com dois golos de bola parada onde Zé Castro e Pedro Roma dividem alguma da culpa, num jogo que forçosamente tinha de mostrar muito mais (com uma equipa ultracompetitiva, como foi o adversário de ontem, diga-se) e não mostrava argumentos suficientes para reverter os acontecimentos. A apreensão dos adeptos apoderou-se de todo o estádio. As entradas para as bancadas, os corredores de acesso e as escadarias ficaram lentamente pejadas de gente que preferia sofrer sem ver tão agreste sofrimento no relvado.
A chave da vitória esteve mais uma vez, no lançar mão das opções de ataque sentadas no banco. Gelson deu nova vida a Joeano, mostrou que é um jogador de utilidade surpreendente, Sarmento abriu o jogo da Briosa nas alas e forçou o adversário a esticar a cortina defensiva ao limite e mesmo Hugo Alcântara deu poder de choque ante os centrais contrários. O 1-2 devolveu a vida ao estádio e mostrou que mais uma vez, os estudantes estudam na última da hora, já no aperto enrascado dos últimos minutos antes dar orais. Os «BRIOSAS» foram devolvidos às gargantas dos adeptos. Adivinhava-se o 2-2.
Foi na melhor jogada de ataque da Briosa que o lance aconteceu. Penalty sobre um isolado Hugo Alcântara na direita do ataque e bola na marca. Nas bancadas segredava-se em surdina o golo da Naval ante o Penafiel. O jogo encontrava-se cronologicamente parado e durante alguns minutos o espectro da segunda liga voltou a pairar, mas nunca na cabeça de Joeano. Com a frieza implacável dos grandes avançados converteu uma exemplar penalidade que permitiu a loucura no Estádio. Até ao final e mesmo nos últimos segundos, o espírito do «calças na mão» pairou sobre Coimbra. O jogo acabou , como não poderia deixar de ser, com um livre perigoso contra os Capas Negras. Os meus olhos de adepto não conseguiam já sequer focar a bola ou as movimentações da barreira. Tudo era demasiadamente distorcido, como em câmara lenta…Finalmente! Acabou o jogo! Acabou o sofrimento!
Análise individual dos jogadores:
Pedro Roma – Com culpas no segundo golo, mas acabou por demonstrar segurança nos restantes lances, acabando por ser uma voz de comando em quase todo o encontro. Poucos como ele, saberiam o que fazer e como o fazer no final da partida.
Pedro Silva – Demonstrou mais uma vez que é um dos melhores na sua posição no plante da Académica, apesar do seu indomado feitio. Uma bola para este jogador é sempre para sair a jogar, sempre para encontrar forma de a moldar mais redonda. Foi dos mais inconformados, tentando sempre algo mais. Poderia ter marcado na conversão de um livre, ainda na primeira parte.
Ezequias – Um dos melhores jogos do brasileiro ao serviço da Briosa. A adaptação da sua readaptação a central foi de uma virtualidade a toda a prova mostrando que parece ter espaço na próxima época no plantel da Académica. Tentou sair a jogar, demonstrando apetência pelo controle de bola. Mau no capítulo do passe longo, onde errou demasiadas tentativas de colocação de bola.
Zé Castro – Pedia-se algo mais ao central académico. Poderia ter marcado um golo de cabeça na sequencia de um canto e pouco mais. Um desacerto fatal permitiu o primeiro golo adversário e no restante tempo escondeu-se do jogo. Com o espectro dos quatro cartões amarelos completamente afastado e a lesão debelada, pensar-se-ia que iria arrancar para uma outra qualquer exibição, muito mais proveitosa.
Vítor Vinha – Sentiu muito a pressão do jogo no primeiro tempo. A sua defesa pessoal foi sempre jogar pela certa e nunca complicou lances de aperto. Para fora ou para o lado, não desequilibrou, mas também não foi um elemento menor. Na segunda metade teve de se soltar pelas contingências do jogo. Aí demonstrou mais fielmente do que é capaz.
Andrade – Um jogo de esforço que na primeira metade teve laivos de perfeição. Excepcional na marcação e na cobertura de espaços, não deu veleidades a uma das mais influentes unidades adversárias que já partiu muita loiça a muitas equipas do campeonato. Na segunda metade, um menor fulgor físico impediu-o de sair a jogar, mas sobe sempre resguardar-se e reaparecer nos momentos certos.
Roberto Brum – Com a inclusão de Andrade no onze titular conseguiu soltar-se a preceito e ser mais um transportador de bola. Cumpriu a missão de centro de terreno e ainda esteve nos principais lances de perigo da Briosa. Inconformado, lutador e perseverante como sempre.
Rui Miguel – Roçou o medíocre na adaptação à direita do ataque. Esteve bem no capítulo da cobertura das costas de Pedro Silva, mas nunca soube aproveitar os espaços de ataque. Saiu muito depois da hora que lhe era devida.
N’Doye – Tentou ser o transportador de jogo de ataque, mas o Prof. teimosamente tenta prende-lo à esquerda, onde não tem hipótese de aplicar remate. Mal no capítulo do cruzamento e da finalização em diagonal subiu curiosamente de produção depois do empate, no capítulo de retenção de bola em espaços mais avançados.
Nuno Piloto – Não conseguiu ter a clarividência suficiente para se afastar das más exibições dos últimos jogos em casa. Apesar da luta e do tipo de «luta limpa» que promove em campo, tinha de ter feito muito, mas muito mais.
Joeano – O herói da permanência. 2 golos decisivos, um penalty marcado com a frieza dos grande avançados, um número de golos impressionante no pouco tempo de jogo que teve no campeonato…Incansável na luta sozinho na frente ou acompanhado por mais cinco. A renovação de contrato urge…
Suplentes utilizados –
Gelson – Mostrou que era necessária a sua participação em campo ontem. Quando entrou revolucionou todo o jogo de ataque e permitiu mais espaço para Joeano se movimentar. Exibição bem positiva.
Sarmento – Urgia que entrasse em campo para esticar a cortina defensiva adversária. Exemplar nessa função, poderia ter marcado, não fora a bola ter aparecido à frente do pé errado (esquerdo)…
Hugo Alcântara – Mais uma vez o central deu que fazer na frente lutando bravamente contra as torres adversárias. Movimentando-se bem no espaço atacante sofreu o penalty, que se pode dizer, da manutenção quando se preparava para rematar à baliza em posição excelente de golo. Depois do 2-2, quando recuou para o eixo defensivo, cumpriu a preceito.



| << Voltar ao Inicio