Reflexos de uma época
As análises sintéticas fazem-se por tópicos. A compreensão da realidade é muito mais fácil pela demonstração objectiva e taxativa de determinadas ocorrências factuais que podem conduzir a uma discussão coerente. Dois hipotéticos adeptos, duas possíveis (e correctas) visões da realidade. Qual delas a mais forte? O adepto ao espelho
Começou, na minha opinião de forma infeliz e elevando a fasquia quanto às expectativas, comparando-se a uma tenra posta de bovino para justificar um salário das arábias. Será que, volvido um ano e meio, podemos considerar o investimento justificado? Eu tenho para mim que não, senão vejamos:
- Dispôs da maior soma de dinheiro de que há memória na instituição para construir uma equipa que se queria competitiva e sobretudo equilibrada. Trouxe um preparador físico do hóquei patins que resultou numa onda de lesões musculares sem precedentes.
- Não contratou nenhum extremo esquerdo de raiz, quis fazer a época com 3 centrais quando sabia da sua predilecção por um estilo mais defensivo. Optou, em Janeiro deste ano, por não fazer ajustes na defesa quando já era claro que iria ter problemas.
- Abdicou do melhor avançado (que carregou a equipa às costas o ano passado) por pura implicação com este, depois de o ter encostado a extremo esquerdo. Já não teve pulso tão forte para com outro jogador que passou a época a gozar com ele e com os sócios.
- Nalguns jogos cometeu erros primários e irritantes que nos custaram pontos: a época passada com o Setúbal e Marítimo, esta época na Amadora e com a Naval foram os casos mais flagrantes de inabilidade para lidar com situações de vantagem no marcador.
- Teve a possibilidade de discutir uma presença nas meias finais da Taça de Portugal e optou por colocar uma série de jogadores de segunda linha no jogo com o Sporting nos Quartos de Final, desrespeitando a vontade e a ambição da Direcção e dos sócios nesta prova.
- Atingiu, esta época, com uma equipa construída por si, uma classificação medíocre, nada consentânea com a valia dos jogadores (ainda que com um conjunto desequilibrado) e com o dinheiro investido.
Por estas razões penso que a decisão da Direcção foi lógica (mesmo que desajustada na forma, se é que o foi!!!).
No outro lado do espelho temos o adepto marcado positivamente pela passagem do treinador pelas lides académicas. Não seja o futebol um jogo de ambiguidades…:
-A forma como se salvou a Académica de uma descida anunciada nos seus primeiros meses de combate. A marca quase batida da invencibilidade, os 13 jogos sem perder que facilmente poderiam ter sido 15 (a derrota caseira com o Moreirense assim não o permitiu).
- A aposta nos jovens das escolas da Académica. Por nós referido em post anterior e por Nelo Vingada em entrevista ao Diário de Coimbra no passado domingo isso mesmo afirmaram. A Académica foi, depois do SCP, o clube que mais apostou nos jovens da sua formação. Sarmento, Zé Castro, Vítor Vinha, Nuno Piloto, Fausto, Rui Miguel e mesmo Ito souberam sempre que uma oportunidade surgiria e que seriam, aos olhos do treinador académico, verdadeiras opções enquanto jogadores.
- O pecúlio forasteiro. O segundo melhor ataque da Liga portuguesa fora de casa, um impressionante número de vitórias em terrenos alheios (que tão facilmente poderia ter sido alargado) e uma sobriedade impressionante na hora de atacar o resultado.
- A postura enquanto treinador. Um Homem sério e dedicado, um símbolo de colagem lógica aos ideais que proclamamos. Qualquer adepto ou sócio da Associação Académica Coimbra facilmente se identificaria com a sua atitude em relação à vida.
- A polivalência com que dotou o plantel. Num campeonato tão exigente como foi o deste ano, com o nível de lesões que assolou o plantel, não fora a mobilidade posicional de muitos dos jogadores da Briosa e poderíamos agora, estar a carpir uma mágoa das magoadas…
- O valor acrescen
tado que demonstrou ser, na afirmação da Académica no quadro do futebol profissional português. Já se sabe que o futebol não é apenas - mas também – nomes e Nelo Vingada é um nome forte do futebol luso. A Briosa aproveitou também, nos primeiros passos, após épocas sofridas, a credibilidade futebolística do Professor.
No momento de despedida do Prof. Nelo Vingada e do aproximar de uma nova era de comando, este texto serve como balanço final das contas. Não podemos de deixar um abraço de felicidades ao ex-treinador da Briosa. Também ele, por inerência, um dos nossos.
* Este texto foi contribuição dos editores João Amaral e Gonçalo Pereira




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