Memória Perpétua
Do que eu me lembro ...O ano é 88, a tarde é solarenga, e o pachorrento Ford branco de capota preta vai serpenteando Serra acima, indiferente ao aspecto mais ou menos nauseado dos seus tripulantes, que vão seguindo com indisfarçado interesse a voz roufenha que sai pelos altifalantes, gritando golos de um foragido zairense, que teve de escapar a rios infestados de crocodilos para se meter na boca do lobo mau e estragar esse fim de tarde ... A derrota foi de monta (3-0) e a segunda divisão ficou perto.
Algumas semanas depois, os pretos entram em campo à hora marcada contra um grupo de tripeiros em fim de estação. A contenda parecia correr de feição, as oportunidades sucediam-se mas a bola teimava em não fazer balançar a rede. Percorrendo o caminho entre a sala e a cozinha como um urso enjaulado, vou murmurando entre-dentes algumas palavras pouco carinhosas para com os nossos rapazes, desejando "tele-transportar-me" para o Municipal de Coimbra...
A tarde, mais uma vez, termina em desgraça. Primeiro porque um tal de Raudney, que passara toda a época servindo de salamandra aos seus companheiros de equipa, resolveu acertar na nossa baliza a poucos minutos do fim, e depois porque alguém dormiu mais uns minutos no berço, tendo acordado com fome de vigarizar todo um país futebolístico com uma peça digna de figurar no "hall of shame" deste cantinho à beira-mar plantado, abriram-se alas para o resultado que convinha e mudaram-se as regras para os ultimos 10 minutos "Quem passar o meio campo vai a pé para casa ...".
A vergonha foi Nacional, mas maior vergonha ainda foi a de não deixarem colocar à vista de todos, em horário nobre, tamanha trapaça; foi a de sonegarem justiça a quem sempre pugnou pela verticalidade e pela nobreza de actos e pensamentos. Os espertos, decididamente, ganharam!
Dezanove anos passaram, a memória jamais se apagará enquanto houver um Académico vivo, e é por essa mágoa que, ainda que para bem da própria Briosa, se deva meditar com prudência e em família um eventual reatar de relações institucionais.
Do que eu sei ...
Hoje, passam de facto, 19 anos da memória amarga desse campeonato. Passaram alguns meses de uma decisão do Supremo Tribunal de Justiça, que baseado num substracto legal e depois de uma decisão da Relação que nos havia dado razão, observando questões de facto e de Direito. Razões haverá, para essa decisão. Razões que em nada têm que ver com os factos, sublinhe-se, apenas com questões de mera legalidade estrita, de alguma norma menos bem apreciada, por assim dizer.De qualquer modo, pelas razões acima descritas, os factos dão uma razão que a aplicação formal do Direito não reconhece. Esta «formal razão» que não existe de todo, foi carimbada como «deferida» por um jogo treino, de preparação -qualquer coisa menos amigavel- ao qual decidimos ser julgados, vestindo as roupagens de um Egas Moniz. Mais grave ainda, sujeitamo-nos a ser réus de um tribunal constituido ah-doc num juizo internáutico em forma de comunicado. Julgado por um jurí de julgadores em causa própria e por mais, pejados de culpa.
Submetermo-nos a isto porquê? É já certo, que a Assembleia Geral nada deliberou sobre o corte de relações. A vontade dos sócios da Associação Académica era ao tempo inequívoca. Disso não tenhamos dúvidas. E ainda hoje, pelo ecos dos meios de comunicação académicos, ainda existe essa mesma vontade que presidiu à Asseimbleia que em abono da verdade, não o foi.
De qualquer modo poderiam até existir razões para a realização do jogo. De tentativa de aproximação de duas direcções que já nada têm que ver com tempos idos. De novas gentes, de um novo futebol, de uma novo enquadramento institucional. Mas não poderiamos nunca deixar que tal acontecesse desta forma. Porque nos colocamos numa posição de menoridade, face aos poderes instalados. Porque permitimos que se tecessem juizos de valor de culpados tornados em justos. Menoridade por menoridade, tivesse antes o Dr. João Moreno aceite os 750 mil euros propostos pela Federação em sede de acordo. Ao menos rendia algo, que não um encolher de ombros mal suspirado.
* João Amaral e Gonçalo Pereira
* João Amaral e Gonçalo Pereira



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