FUTRICAS, ESTUDANTES E ALGUNS EXMºS SRS DOUTORES!
Caros Companheiros,Abri uma pequena “brecha” nas minhas férias para desabafar um pouco convosco.
Com os pés quase dentro de água e a testa cada vez mais tostada e luzidia, vou, ao fim de 50 anos de militância na Associação Académica de Coimbra, falar pela primeira vez, publicamente , desta fracturante, divisionista e claramente reaccionária distinção entre Estudantes e Não Estudantes ( as maiúsculas são propositadas em ambas as palavras para que haja paridade).
Começo por vos dizer que tenho um respeito incomensurável por quem, com mérito, trabalho e muito sacrifício, tirou os seus cursos superiores. Honra ao mérito!
E tenho rigorosamente o mesmo respeito por todos aqueles que, por opção ou devido às dificuldades, privações e vicissitudes da vida os não quiseram ou conseguiram tirar.
Quero tratar este assunto com sensibilidade e ponderação, mas, obviamente, não deixará de ser a minha posição e, como tal, discutível e sujeita a qualquer crítica, desde que séria e feita de boa fé.
Vou procurar ser claro e objectivo, para que TODOS pelo menos me entendam.
O meu Pai ( e é uma pequena homenagem pública que lhe presto ) acabou a sua longa carreira de Funcionário Público, como Técnico Superior Principal na área da Saúde.
Era um homem de uma cultura invulgar, memória prodigiosa e humor finíssimo.
Fez, durante muitos anos, da “velha” livraria Atlântida, na Rua Ferreira Borges, a sua segunda casa.
Amigo de Torga, Namora e tantos outros que passaram por aquela “tertúlia” de cultura, devorava livros a um ritmo infernal.
Por razões familiares, não acabou o seu curso superior. Tinha uma paixão sublime pela Académica. A Câmara Municipal de Coimbra, atribuiu recentemente o seu nome a uma rua da nossa cidade, o que a toda a família encheu de orgulho.
O meu Pai ajudou a fundar, dinamizar e estimular, aquele que foi um dos maiores movimentos de apoio à Académica. Estou a falar-vos da conhecida “NAVE DOS LOUCOS” que durante anos a fio, percorreu o País de Norte a Sul atrás da sua Amada.
Todos cabiam naquela Nave. Médicos, Alfaiates, Engenheiros, Funcionários Públicos, Bancários, etc, etc. NUNCA, nos anos que os acompanhei, alguma vez ouvi o termo futrica! Era um grupo irreverente, lúdico, e de uma solidariedade “à prova de bala”.
A Académica unia-os a todos.
Passando em revista (mas muito na diagonal, confesso) o que a blogosfera académica tinha escrito nas últimas semanas, deparei-me com um texto, nos “pardalitos do choupal”, assinado pelo Dr. Miguel Madeira, (que não conheço pessoalmente, nem faço a mínima ideia quem seja), que, indignado, entre a exaltação e o sentido de “posse”, me chamava futrica com todas as letras (daí a minha dedução imediata de o autor ser dr ou engº).
Nada tenho contra o referido autor do texto, mas não lhe dou “ponta” de legitimidade, nem o direito de “cercear” os limites da minha visão e paixão pela Académica. Falta-me claramente um elemento fundamental. Saber a sua idade.
Se for um velho “passadista”, um saudosista ressabiado, daqueles que só falam de Coimbra actual para a apoucar, ou alguém que desistiu de “agarrar” o futuro e que vive eternamente do passado, ainda tolero. Agora se se trata de um jovem “arejado”, no início da sua vida profissional, é que me preocupa mais.
Mas há terapêutica para tudo e o remédio está dentro da própria “casa”. Sugiro-lhe que se sente entre os meus amigos Luís Santarino e José Romão e os ouça falar da relação entre Estudantes e não Estudantes, no período e na época em que isso fazia algum sentido. E, se não for muita maçada, leia o texto de apresentação do meu querido amigo Zé Romão quando se iniciou nas lides blogueiras nos “pardalitos do choupal”.
Este termo futrica, quando utilizado hoje (e perfeitamente desajustado da actual realidade coimbrã) é por norma “assassino”, divisionista, elitista e, como atrás disse, fracturante.
E ajuda a explicar, em parte, a actual realidade da Académica.
Nos últimos 22 anos “vegetámos”, sem honra nem mérito, pelas “catacumbas” da 2ª divisão, alternando como umas fugazes passagens pela 1ª liga.
Alguns dos “clubezecos”, a que o Dr. (ou Engº) Miguel Madeira com sobranceria e desdém se refere, deram-nos autênticas lições de vida associativa. Mobilizaram-se em torno dos seus emblemas, das suas regiões, com grande esforço, empenho e muito trabalho. Criaram as suas próprias estruturas desportivas, parques desportivos modernos e funcionais, com infra-estruturas que nos levam 10 ou 15 anos de avanço.
Geraram riqueza para as suas regiões, fortaleceram o comércio local, a hotelaria, a restauração e são “residentes” com lugar cativo na 1ª divisão há bastantes anos.
E mais. Nunca precisaram de “benesses” do Estado Novo, nem dos favores da política para nada.
Nós andamos AINDA, em 2006, atavicamente, a discutir de quem é a responsabilidade da não construção dos campos do bolão, infra-estrutura fundamental para o futuro desportivo da nossa Instituição.
Mas se, com seriedade e salutar visão crítica, alguém quer analisar a actual situação da nossa Académica, vem logo um Exmº Srº Drº (ou Engº) “rapar” dos seus galões e arvorar-se em dono da “quinta”.
Caro Dr. (ou Engº) Miguel Madeira, eu lido anualmente com centenas de licenciados, que, acabados os seus cursos, são despejados no “mercado” do desemprego. Ajudo-os a desenvolver competências que os possam tornar mais aptos, mais fortes e competitivos para enfrentar este flagelo do desemprego. É uma geração de que eu gosto particularmente e para a qual tenho grande sensibilidade, porque sei o que os espera. Ou um lugar como “caixa” de Hipermercado (o que não é desonra nenhuma), um contrato a “termo certo” ou os famigerados “recibos verdes”. Isto, claro, se não estiver “encostado” à generosidade de um partido político.

Faça uma viagem com a “Mancha Negra”(se é que já não a fez). Entre em qualquer dos autocarros e veja o convívio salutar, militante e irreverente entre todos eles. E encontra lá de tudo (e neste tudo, cabe tudo!), licenciados, estudantes, operários, desempregados, eu sei lá…
Vá lá perguntar-lhes o que é um futrica?
Olhe, meu caro Dr (ou Engº), e para acabar este desabafo, os futricas que o Sr refere com tanto desdém e pedantismo, foram uma das grandes “alavancas” dos movimentos culturais e associativos de Coimbra. Do teatro ao cinema, passando pela música e pelas artes plásticas. Os grandes núcleos de referência cultural da nossa cidade tiveram (e têm) todos a sua marca. Na “tasca” do Romão, no Manel da Mercearia, ou no Zé Bruto, com tinto ou com branco, discutia-se apaixonadamente a Académica sem qualquer tipo de complexos.
Nessa altura, o termo futrica era amizade, solidariedade, companheirismo e grande cumplicidade entre todos. Era um termo mobilizador.
Utilizá-lo, hoje, é não só abusivo, como desajustado da realidade. Imagino o seu incómodo de ter que se sentar no mesmo Estádio, onde hoje coabitam consigo maioritariamente futricas.
Pode ser que o Engº José Eduardo Simões lhe reserve um local exclusivo no Estádio, para ver o futebol, “imune” a esta praga!
O João Ruas ( eu cito-o, meu caro, nunca mais quero ser deselegante consigo) escreve um texto à sua maneira. A saudade, a nostalgia, “arrastaram-no”, realmente, para uma (se não a maior) época de grande consenso académico.
E refere, com saudade, as equipas do fim da década de 60 que, maioritariamente constituídas por jogadores universitários, se batiam com as equipas profissionais.
Meu caro João Ruas, aprendi nos bancos da faculdade e da vida profissional, que só se compara o que é comparável.
Como quer o meu amigo reeditar, em 2006, o modelo de 1966/69?
Independentemente do orgulho que tínhamos em ver jogadores universitários a baterem-se com profissionais, não se esqueça que os nossos também o eram.
E o João Ruas “enfatizou” a componente estudantil, quando sabe que o que mais gozo nos dava e nos mobilizava era ver a nossa Briosa ganhar em qualquer campo, com grande qualidade e competência.
E tem aí a razão objectiva para termos o velho “calhabé”, sempre a abarrotar pelas costuras. Tínhamos uma equipa ganhadora que, domingo a domingo, nos enchia a alma e aumentava a auto-estima.
Como é possível voltar a esses tempos, se hoje qualquer jovem futebolista mediano, com 15/16 anos, já traz “à trela” um empresário, e a maior parte das vezes o pai com um cofre debaixo do braço para não deixar fugir o dinheiro?
Acha o meu caro amigo que era hoje possível reeditar essas épocas de ouro, com o mesmo espírito?
Acredita que é possível mobilizar uma cidade, com a baixíssima qualidade deste produto que andamos a tentar “vender” há 22 anos?
Jogadores estudantes? Claro que também gostaria de os ter. Mas, primeiro, que sejam profissionais, competentes e disponíveis. Pago religiosamente o meu bilhete de época para ver futebol de qualidade jogado por profissionais a tempo inteiro.
Jorge Anjinho, Mendes Silva, Paulo Cardoso, Campos Coroa, João Moreno e Eduardo Simões, todos sem excepção (uns mais do que outros), aumentaram sempre o passivo da Briosa, e pensa que foi para pagar as propinas aos jogadores estudantes? Ou para fazer residências escolares atractivas e funcionais para os atletas estudantes?
Desiluda-se, meu caro. Todos eles, rigorosamente sem excepção, se preocuparam prioritariamente (e bem) em constituir plantéis profissionais que pudessem dar-nos sucessos desportivos.
Até há bem pouco tempo, o nosso único património era o Pavilhão Jorge Anjinho e, mesmo esse, salvo, no limite, de uma “hasta pública”.
Sabe o que aconteceu a todos os grandes jogadores das épocas de sucesso que refere?
Na primeira oportunidade, cederam todos (com algumas excepções) aos convites dos grandes. Rui Rodrigues, Artur Jorge, Manuel António, Oliveira Duarte, Toni, Lourenço são claramente exemplos disso. Podia continuar a engrossar esta lista, mas o meu amigo conhece-a tão bem quanto eu.
A Académica é património de todos!
É da Pedrulha, do Tovim, da Solum. É dos bairros socialmente mais desprotegidos.
É da Universidade, do Politécnico, e dos Estudantes do secundário.
A Académica é tanto (ou mais) do Sr. Fernando, motorista da Briosa, como é do Magnífico Reitor.
Só os “cabotinos”, os “pedantes” e os “vaidosos” é que não percebem isto.
VIVA A BRIOSA!




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