Manuel Machado em entrevista ao Diario de Coimbra
“Não vejo grande margem de manobra para ficar no primeiro terço da tabela”
.
A próxima temporada pode ser chamada de “ano zero” da Académica. Revolução no plantel com a introdução de jogadores provenientes de mercados alernativos e um novo treinador. Em entrevista ao Diário de Coimbra, Manuel Machado, técnico da Briosa, analisa a pré-temporada estudantil e perspectiva o futuro do clube. Arrefece os ânimos de quem pensa na Académica para o primeiro terço da tabela, confessando que com trabalho e rigor o segundo terço é uma possibilidade. Sobre a revolução no plantel, Manuel Machado afirma que foi vontade da direcção, mas considera-a pertinente. Todavia, assegura que os resultados não vão aparecer no imediato
.
Diário de Coimbra (DC) - Que balanço faz do primeiro mês de trabalho?
Manuel Machado (MM) - Tem sido um princípio de temporada difícil por três ou quatro razões que já referi. Em primeiro lugar existe um grande número de jogadores introduzidos e o faseamento da sua chegada. Depois as lesões, imponderáveis que são normais nesta fase da época e, finalmente, algumas coisas que não são tão normais, como jogadores que chegaram com problemas, caso do Nestor, do Estevez e do Sonkaya, e que não são propriamente fruto do início da temporada, porque são mazelas que vinham de trás. Difícil é a palavra que mais se coaduna para este primeiro mês e 10 dias de trabalho.
.
DC - Mas esperava outro tipo de resposta dos jogadores?
MM - Não tem nada a ver uma coisa com outra. A resposta dos jogadores tem sido muito positiva. Estas condicionantes fogem da minha mão, da mão do departamento clínico e dos próprios jogadores. O problema das lesões acontece a qualquer momento, por isso, não se podem controlar esse tipo de factores. Os jogadores têm revelado uma boa e grande disponibilidade para trabalhar, agora as condicionantes estão presentes. Não é uma situação desesperante, mas é uma realidade.
.
DC - A ambição da grande revolução efectuada no plantel foi introduzida pelo “professor”... (interrompe)
MM - Não. Nem pouco mais ao menos. A solução da alteração do quadro de profissionais que a Académica levou a cabo, e está a levar a cabo, é da responsabilidade de quem de direito, ou seja, da sua direcção. A questão da alteração não tem nada a haver comigo. Porém, o trabalho de encontrar perfis que se quer para um grupo de trabalho com cor e de preencher esses determinados perfis é que tem sido bipartido entre a direcção e o quadro técnico. São coisas diferentes.
.
DC - Na altura em que foi direccionado o convite e apresentado o projecto foi-lhe transmitido logo, por parte da direcção, a vontade de realizar essa profunda alteração?
MM - Praticamente. À partida previa-se a manutenção de cerca de 60 por cento dos jogadores do grupo e 40 por cento de novas entradas. Mas fruto da venda do Ezequias, do Joeano e da saída do Hugo Alcântara, as coisas inverteram-se um pouco, mas eu sabia que existia a vontade da direcção em fazer esta transformação no grupo de trabalho.
.
DC - De alguma forma esse desafio incentivou-o a aceitar o convite para treinar a Académica?
MM - Não. O convite foi aceite antes disso e com o pressuposto Académica instituição, independente das nuances que o grupo de trabalho viesse a ter. A partir do momento que apareceu o convite e foi aceite, debruçámo-
-nos sobre o plantel e foram aparecendo certas condicionantes.
.
DC - Quando afirmou que a chegada faseada dos jogadores condicionava a construção da equipa, queria fazer alguma crítica ao trabalho da direcção?
MM - Não. As pessoas fizeram uma leitura na diagonal daquilo que eu disse. O que queria dizer, e o porquê de o ter dito, foi a constante leitura que a imprensa vinha a fazer da sucessão de resultados. Depois expliquei que essa sucessão menos positiva tinha a ver com algo menos normal, ligado às razões que já mencionei atrás. Não tem nada de crítico, foi uma explicação do porquê de os resultados não terem aparecido tão rapidamente quanto se queria. Essa leitura foi feita talvez porque o meu português não é bom ou porque as pessoas têm sempre como predominante o lado menos positivo do que se diz, buscando sempre o lado negativo. E isso apareceu na imprensa a induzir na crítica quando assim não é.
.
DC - Tem consciência que o facto de ter chegado às competições europeias nos últimos dois clubes por onde passou pode elevar a confiança dos adeptos da Académica?
MM - Não há nada no futebol que garanta resultados, mas também não é previsível que uma equipa após uma transformação desta dimensão os obtenha no imediato. Nesse quadro e tendo em conta os resultados obtidos nos últimos clubes que liderei não é garantia absolutamente nenhuma. Evidente que o que foi dito na apresentação, quer por mim quer pelo presidente da direcção, e depois de nas últimas épocas a Académica ter tido dificuldades em se manter, é que o objectivo é efectuar uma época tranquila. Isto é, que a manutenção na Liga se alcance de forma tranquila para não repetirmos uma ponta final de prova com o coração apertado como tem acontecido ultimamente. Não podemos fazer projecções de objectivos maiores enquanto este não tiver realizado.
.
DC - Afirmou no final do jogo com o Boavista que não acreditava que a Académica fosse um “outsider” na Liga. Isso serviu para acalmar alguns ânimos mais excessivos?
MM - Isso é realismo, e não levar as pessoas a pensar em outros voos que depois ao não serem alcançados levam à frustração. Quem anda neste mundo e conhece os pressuposto do que são as pedras basilares de um bom desempenho, sabe que dificilmente eles se encontram neste momento na Académica. E uma das regras principais é que não se façam grandes alterações num plantel, normalmente, quando esse dá garantias, o não tem sido o caso. Por isso, acho pertinente aquilo que a direcção acabou por fazer. Depois destes quatro anos onde a equipa teve dificuldades em obter a manutenção, partir para uma limpeza e introdução de novos jogadores no sentido de criar um grupo diferente. Parece-me importante e de alguma maneira correcto. Veja-se por exemplo o Sporting de Braga que nas últimas três épocas tem conseguido obter resultados, antes passou pelo mesmo que a Académica, mas nestes últimos anos as alterações que foram feitas no plantel nunca excederam os 20 por cento. Quando se efectua uma mudança deste calibre dificilmente se conseguem obter resultados no imediato. Pode-se sim, lançar os alicerces para que nas temporadas vindoiras se atinja com naturalidade objectivos maiores e ambições maiores.
.
DC - Acredita que a Briosa tem condições para no futuro cimentar a sua posição na Liga e lutar por outros objectivos?
MM - Acredito. Aliás, quando me perguntou o porquê de ter aceite o convite tem a haver com esta questão. Coimbra é uma cidade grande deste país e que gosta de futebol. Tem na Académica uma instituição com grande tradição e relevo na modalidade. Para mim era sempre uma interrogação em saber porque a Académica não conseguia fazer campanhas mais condizentes com estas grandezas que acabei de enumerar. O grande factor motivacional que me faz estar aqui agora é tentar perceber o porquê de as coisas não acontecerem de forma diferente, e ser um catalizador para conseguir torneá-las. Penso que encontrados os caminhos certos e corrigidos os problemas no plano desportivo a Académica tem condições para cimentar a sua posição na Liga. Tem um belo estádio, uma massa associativa grande e um centro de treinos que garante uma logística razoável. Do ponto de vista financeiro tem cumprido com os seus encargos e compromissos e isso são factores positivos que, de alguma maneira, me levam a acreditar que depois do trabalho de base, a Académica possa lutar por patamares classificativos mais elevados.
.
DC - Já identificou algum desses problemas que não permitiam que o sucesso aparecesse em anos anteriores?
MM - Não conheço o passado desportivo do clube, conheço apenas o passado pelas suas classificações. Por isso não posso, de maneira nenhuma, neste momento, dizer o que falhou. É uma questão que com franqueza não poderei responder. Não entro num discurso de conveniência quando não tenha dados para o fazer.
.
DC - Será uma temporada difícil pelas razões conhecidas, já o disse, mas ao mesmo tempo quer garantir a manutenção com tranquilidade. Não é um pouco contraditório?
MM - Vai ser difícil no sentido dos objectivos que algumas pessoas querem ver espelhados, que é falar no primeiro terço da tabela. Isso digo-lhe já que teremos 10 por cento de possibilidade de o conseguir. Relativamente à questão de fazer uma época tranquila, ou seja ficar no segundo terço (entre o sétimo e o 12.º lugar) diria que será menos difícil. São duas dificuldades de grandezas diferentes, embora no futebol não existam impossíveis. Para o primeiro terço não vejo grande margem de manobra para lá chegarmos, para a segunda acredito que com trabalho, organização, com ponta de sorte, rigor e com nível de exigência grande, possamos conseguir a tranquilidade um pouquinho melhor do que em anos anteriores.
.
DC - Que análise faz ao início da Liga da Académica , uma vez que defronta equipas do mesmo “campeonato”?
MM - No “timing” que essas equipas nos aparecerem não nos é nada benéfico. Sendo que temos um mês de atraso relativamente à preparação, jogar com adversários que, no plano teórico, são da nossa grandeza e do nosso campeonato e recebermos a Naval e o Belenenses ou o Gil Vicente, consoante venha a ser determinado a resolução do caso, não é tão positivo assim. Se tivéssemos já mais construídos, com certeza que poderiam ser dois bons resultados, uma vez que Setúbal também não é impossível de lá irmos pontuar, e podíamos ganhar aí índices de confiança que nos possibilitasse um bom arranque para a temporada. Agora com o atraso que temos, esses jogos são de grande risco e poderemos estar a desperdiçar pontos que, no plano teórico, seriam de quase obrigatória obtenção.
.
DC - A uma semana do começo da prova ainda está para chegar um jogador. Esse atleta fecha o plantel?
MM - Já na última conferência de imprensa me colocaram essa questão embora de uma forma transversal, tentando saber se a entrada de mais jogador quereria dizer a saída de outros, e eu respondi de uma forma irónica que era segredo. Todavia, neste momento é líquido, salvo se houver algum percalço, que o Milos Pavlovic é um jogador em trânsito, só não está cá ainda, sendo que está tudo tratado com o jogador e o clube que representava, por uma questão burocrática de obtenção de visto e que julgo estará pronto muito brevemente. É evidente que isso faz com que o número de jogadores acresça para 26, sendo que eu disse no passado que gostaria de ter um grupo entre os 23 e os 25 atletas, prossupostamente, isso obrigará a arrumação em termos numéricos do grupo que cá está. Mas também direi, tal como no passado, que as questões do foro contratual, que dizem respeito à realização de vínculos ou à quebra dos mesmos, é da competência, não do técnico, que é mais um contratado, mas sim da entidade patronal, que aqui é corporizada pela direcção e seu presidente. Se eventualmente acontecer alguma entrada mais ou sair daqui alguém será sempre a direcção a decidi-lo. Eu assessorio tecnicamente essa direcção, normalmente é me colocada a questão, e se isso vier a acontecer, logicamente me pronunciarei.
.
DC - Mas será sempre o treinador a ter essa decisão?
MM - Posso é fazer ver às pessoas que aquele sector está sobrelotado ou sobredimensionado e nesse contexto deixar a porta aberta para a lacuna ser suprimida. Mas isso é uma questão que agora não se coloca porque os clubes podem inscrever 27 jogadores, e se a direcção achar que em vez de 25, deveremos ter 27, não vejo que a casa caia.
.
DC - Os reforços confirmaram as expectativas?
MM - Sim. Fizemos um trabalho de pesquisa longo para encontrarmos as individualidades para dar cor e qualidade ao grupo e penso que as encontrámos. Existem questões que nos fogem da mão, porque são jogadores de mercados alternativos e que vêm de realidades diferentes. Por isso há sempre o período chamado adaptação e há uns que conseguem fazê-lo rapidamente e outros não. Tivemos cuidado nas pesquisa que fizemos para encontrar os tais requisitos e esperamos que todos, ou a maioria deles, tenham a capacidade de se adaptar a um futebol diferente, a um meio social diferente, a um clima que é diferente, a uma alimentação e cultura diferente, enfim, a toda uma nova realidade que não perturbam de alguma maneira o que eles expressaram nos “futebóis”, se assim se pode dizer, de que são originários.
.
DC – Foram as suas primeiras escolhas?
MM – Não existiram primeiras e segundas escolhas. Foi feito um trabalho entre equipa técnica, director desportivo e presidente da direcção, no sentido de identificar perfis que se adequassem aos nossos propósitos. Nessa escolha entram o factor do perfil, mas também a questão financeira. E nesse campo existiram jogadores equacionados mas que foram descartados pelo que a Académica pode pagar a A ou B.
.
DC - Qual o sistema táctico que quer para a Académica?
MM – Eu não sou treinador de sistemas. Só para ilustrar eu não sou como o técnico Co Adriaanse fez no Porto, que apenas se fixou no sistema de três defesas, jogou com ele e teve sucesso. Até porque os clubes que tenho treinado são de média e pequena dimensão e gosto que as minhas equipas tenham flexibilidade. Ou seja, que consigam dar resposta às várias situações , adequando-se às diversas fases competitivas que formos tendo. Não vale a pena tentar encontrar um sistema para a Académica, vamos conseguir dar resposta em 4x2x3x1, 4x4x2 em losângulo e em 3x5x2. Estes são os sistemas referenciados, porque procuramos flexibilidade e cultura táctica.
.
DC - O facto de existirem várias nacionalidades dentro do balneário não impede essa rápida adaptação?
MM - Não me parece. Hoje em dia estamos constantemente a falar de coisas e quando elas caem na nossa casa vemos sempre problemas. Muito se fala de aldeia global, de globalização, da livre circulação de mercadoria e trabalhadores, bem como da abolição de fronteiras e do inglês como língua universal. Por isso tudo, não me parece um problema a variedade de culturas, nacionalidades e línguas que temos dentro do balneário. Agora, é evidente que seria mais fácil e mais aconselhável ter um plantel de 23 ou 25 portugueses, mas julgo que hoje essa é uma situação sem exemplo no nosso país, porque qualquer grupo tem uma diversidade de nacionalidades como a que a Académica tem. Uns mais outro menos, mas teremos de encarar o futuro com essa realidade. Não me parece que venha a existir retrocesso nessa tendência e julgo que a tendência de contratar jogadores de vários locais será cada vez maior.
.
DC - Como analisa o recente protocolo elaborado com o Tourizense?
MM - Julgo que é interessante. O protocolo com o Tourizense traz a possibilidade de manter um canal aberto entre os clubes e existindo quatro ou cinco jogadores - na casa dos 19/20 anos - no Tourizense que estão em fase de complemento formativo. E por isso, existe sempre a possibilidade de a qualquer momento, por leitura do bom trabalho efectuado por eles, de fazer com que ingressem na Académica. Por outro lado, há outros que também têm a possibilidade, por um abaixamento de forma ou recuperação de lesão, de jogar a um nível mais baixo para readquirirem a forma. Por isso penso que é um protocolo inteligente e que beneficia as duas colectividades.
.
Ricardo Busano
.
http://www.diariocoimbra.pt/13274.htm
A próxima temporada pode ser chamada de “ano zero” da Académica. Revolução no plantel com a introdução de jogadores provenientes de mercados alernativos e um novo treinador. Em entrevista ao Diário de Coimbra, Manuel Machado, técnico da Briosa, analisa a pré-temporada estudantil e perspectiva o futuro do clube. Arrefece os ânimos de quem pensa na Académica para o primeiro terço da tabela, confessando que com trabalho e rigor o segundo terço é uma possibilidade. Sobre a revolução no plantel, Manuel Machado afirma que foi vontade da direcção, mas considera-a pertinente. Todavia, assegura que os resultados não vão aparecer no imediato.
Diário de Coimbra (DC) - Que balanço faz do primeiro mês de trabalho?
Manuel Machado (MM) - Tem sido um princípio de temporada difícil por três ou quatro razões que já referi. Em primeiro lugar existe um grande número de jogadores introduzidos e o faseamento da sua chegada. Depois as lesões, imponderáveis que são normais nesta fase da época e, finalmente, algumas coisas que não são tão normais, como jogadores que chegaram com problemas, caso do Nestor, do Estevez e do Sonkaya, e que não são propriamente fruto do início da temporada, porque são mazelas que vinham de trás. Difícil é a palavra que mais se coaduna para este primeiro mês e 10 dias de trabalho.
.
DC - Mas esperava outro tipo de resposta dos jogadores?
MM - Não tem nada a ver uma coisa com outra. A resposta dos jogadores tem sido muito positiva. Estas condicionantes fogem da minha mão, da mão do departamento clínico e dos próprios jogadores. O problema das lesões acontece a qualquer momento, por isso, não se podem controlar esse tipo de factores. Os jogadores têm revelado uma boa e grande disponibilidade para trabalhar, agora as condicionantes estão presentes. Não é uma situação desesperante, mas é uma realidade.
.
DC - A ambição da grande revolução efectuada no plantel foi introduzida pelo “professor”... (interrompe)
MM - Não. Nem pouco mais ao menos. A solução da alteração do quadro de profissionais que a Académica levou a cabo, e está a levar a cabo, é da responsabilidade de quem de direito, ou seja, da sua direcção. A questão da alteração não tem nada a haver comigo. Porém, o trabalho de encontrar perfis que se quer para um grupo de trabalho com cor e de preencher esses determinados perfis é que tem sido bipartido entre a direcção e o quadro técnico. São coisas diferentes.
.
DC - Na altura em que foi direccionado o convite e apresentado o projecto foi-lhe transmitido logo, por parte da direcção, a vontade de realizar essa profunda alteração?
MM - Praticamente. À partida previa-se a manutenção de cerca de 60 por cento dos jogadores do grupo e 40 por cento de novas entradas. Mas fruto da venda do Ezequias, do Joeano e da saída do Hugo Alcântara, as coisas inverteram-se um pouco, mas eu sabia que existia a vontade da direcção em fazer esta transformação no grupo de trabalho.
.
DC - De alguma forma esse desafio incentivou-o a aceitar o convite para treinar a Académica?
MM - Não. O convite foi aceite antes disso e com o pressuposto Académica instituição, independente das nuances que o grupo de trabalho viesse a ter. A partir do momento que apareceu o convite e foi aceite, debruçámo-
-nos sobre o plantel e foram aparecendo certas condicionantes.
.
DC - Quando afirmou que a chegada faseada dos jogadores condicionava a construção da equipa, queria fazer alguma crítica ao trabalho da direcção?
MM - Não. As pessoas fizeram uma leitura na diagonal daquilo que eu disse. O que queria dizer, e o porquê de o ter dito, foi a constante leitura que a imprensa vinha a fazer da sucessão de resultados. Depois expliquei que essa sucessão menos positiva tinha a ver com algo menos normal, ligado às razões que já mencionei atrás. Não tem nada de crítico, foi uma explicação do porquê de os resultados não terem aparecido tão rapidamente quanto se queria. Essa leitura foi feita talvez porque o meu português não é bom ou porque as pessoas têm sempre como predominante o lado menos positivo do que se diz, buscando sempre o lado negativo. E isso apareceu na imprensa a induzir na crítica quando assim não é.
.
DC - Tem consciência que o facto de ter chegado às competições europeias nos últimos dois clubes por onde passou pode elevar a confiança dos adeptos da Académica?
MM - Não há nada no futebol que garanta resultados, mas também não é previsível que uma equipa após uma transformação desta dimensão os obtenha no imediato. Nesse quadro e tendo em conta os resultados obtidos nos últimos clubes que liderei não é garantia absolutamente nenhuma. Evidente que o que foi dito na apresentação, quer por mim quer pelo presidente da direcção, e depois de nas últimas épocas a Académica ter tido dificuldades em se manter, é que o objectivo é efectuar uma época tranquila. Isto é, que a manutenção na Liga se alcance de forma tranquila para não repetirmos uma ponta final de prova com o coração apertado como tem acontecido ultimamente. Não podemos fazer projecções de objectivos maiores enquanto este não tiver realizado.
.
DC - Afirmou no final do jogo com o Boavista que não acreditava que a Académica fosse um “outsider” na Liga. Isso serviu para acalmar alguns ânimos mais excessivos?
MM - Isso é realismo, e não levar as pessoas a pensar em outros voos que depois ao não serem alcançados levam à frustração. Quem anda neste mundo e conhece os pressuposto do que são as pedras basilares de um bom desempenho, sabe que dificilmente eles se encontram neste momento na Académica. E uma das regras principais é que não se façam grandes alterações num plantel, normalmente, quando esse dá garantias, o não tem sido o caso. Por isso, acho pertinente aquilo que a direcção acabou por fazer. Depois destes quatro anos onde a equipa teve dificuldades em obter a manutenção, partir para uma limpeza e introdução de novos jogadores no sentido de criar um grupo diferente. Parece-me importante e de alguma maneira correcto. Veja-se por exemplo o Sporting de Braga que nas últimas três épocas tem conseguido obter resultados, antes passou pelo mesmo que a Académica, mas nestes últimos anos as alterações que foram feitas no plantel nunca excederam os 20 por cento. Quando se efectua uma mudança deste calibre dificilmente se conseguem obter resultados no imediato. Pode-se sim, lançar os alicerces para que nas temporadas vindoiras se atinja com naturalidade objectivos maiores e ambições maiores.
.
DC - Acredita que a Briosa tem condições para no futuro cimentar a sua posição na Liga e lutar por outros objectivos?
MM - Acredito. Aliás, quando me perguntou o porquê de ter aceite o convite tem a haver com esta questão. Coimbra é uma cidade grande deste país e que gosta de futebol. Tem na Académica uma instituição com grande tradição e relevo na modalidade. Para mim era sempre uma interrogação em saber porque a Académica não conseguia fazer campanhas mais condizentes com estas grandezas que acabei de enumerar. O grande factor motivacional que me faz estar aqui agora é tentar perceber o porquê de as coisas não acontecerem de forma diferente, e ser um catalizador para conseguir torneá-las. Penso que encontrados os caminhos certos e corrigidos os problemas no plano desportivo a Académica tem condições para cimentar a sua posição na Liga. Tem um belo estádio, uma massa associativa grande e um centro de treinos que garante uma logística razoável. Do ponto de vista financeiro tem cumprido com os seus encargos e compromissos e isso são factores positivos que, de alguma maneira, me levam a acreditar que depois do trabalho de base, a Académica possa lutar por patamares classificativos mais elevados.
.
DC - Já identificou algum desses problemas que não permitiam que o sucesso aparecesse em anos anteriores?
MM - Não conheço o passado desportivo do clube, conheço apenas o passado pelas suas classificações. Por isso não posso, de maneira nenhuma, neste momento, dizer o que falhou. É uma questão que com franqueza não poderei responder. Não entro num discurso de conveniência quando não tenha dados para o fazer.
.
DC - Será uma temporada difícil pelas razões conhecidas, já o disse, mas ao mesmo tempo quer garantir a manutenção com tranquilidade. Não é um pouco contraditório?
MM - Vai ser difícil no sentido dos objectivos que algumas pessoas querem ver espelhados, que é falar no primeiro terço da tabela. Isso digo-lhe já que teremos 10 por cento de possibilidade de o conseguir. Relativamente à questão de fazer uma época tranquila, ou seja ficar no segundo terço (entre o sétimo e o 12.º lugar) diria que será menos difícil. São duas dificuldades de grandezas diferentes, embora no futebol não existam impossíveis. Para o primeiro terço não vejo grande margem de manobra para lá chegarmos, para a segunda acredito que com trabalho, organização, com ponta de sorte, rigor e com nível de exigência grande, possamos conseguir a tranquilidade um pouquinho melhor do que em anos anteriores.
.
DC - Que análise faz ao início da Liga da Académica , uma vez que defronta equipas do mesmo “campeonato”?
MM - No “timing” que essas equipas nos aparecerem não nos é nada benéfico. Sendo que temos um mês de atraso relativamente à preparação, jogar com adversários que, no plano teórico, são da nossa grandeza e do nosso campeonato e recebermos a Naval e o Belenenses ou o Gil Vicente, consoante venha a ser determinado a resolução do caso, não é tão positivo assim. Se tivéssemos já mais construídos, com certeza que poderiam ser dois bons resultados, uma vez que Setúbal também não é impossível de lá irmos pontuar, e podíamos ganhar aí índices de confiança que nos possibilitasse um bom arranque para a temporada. Agora com o atraso que temos, esses jogos são de grande risco e poderemos estar a desperdiçar pontos que, no plano teórico, seriam de quase obrigatória obtenção.
.
DC - A uma semana do começo da prova ainda está para chegar um jogador. Esse atleta fecha o plantel?
MM - Já na última conferência de imprensa me colocaram essa questão embora de uma forma transversal, tentando saber se a entrada de mais jogador quereria dizer a saída de outros, e eu respondi de uma forma irónica que era segredo. Todavia, neste momento é líquido, salvo se houver algum percalço, que o Milos Pavlovic é um jogador em trânsito, só não está cá ainda, sendo que está tudo tratado com o jogador e o clube que representava, por uma questão burocrática de obtenção de visto e que julgo estará pronto muito brevemente. É evidente que isso faz com que o número de jogadores acresça para 26, sendo que eu disse no passado que gostaria de ter um grupo entre os 23 e os 25 atletas, prossupostamente, isso obrigará a arrumação em termos numéricos do grupo que cá está. Mas também direi, tal como no passado, que as questões do foro contratual, que dizem respeito à realização de vínculos ou à quebra dos mesmos, é da competência, não do técnico, que é mais um contratado, mas sim da entidade patronal, que aqui é corporizada pela direcção e seu presidente. Se eventualmente acontecer alguma entrada mais ou sair daqui alguém será sempre a direcção a decidi-lo. Eu assessorio tecnicamente essa direcção, normalmente é me colocada a questão, e se isso vier a acontecer, logicamente me pronunciarei.
.
DC - Mas será sempre o treinador a ter essa decisão?
MM - Posso é fazer ver às pessoas que aquele sector está sobrelotado ou sobredimensionado e nesse contexto deixar a porta aberta para a lacuna ser suprimida. Mas isso é uma questão que agora não se coloca porque os clubes podem inscrever 27 jogadores, e se a direcção achar que em vez de 25, deveremos ter 27, não vejo que a casa caia.
.
DC - Os reforços confirmaram as expectativas?
MM - Sim. Fizemos um trabalho de pesquisa longo para encontrarmos as individualidades para dar cor e qualidade ao grupo e penso que as encontrámos. Existem questões que nos fogem da mão, porque são jogadores de mercados alternativos e que vêm de realidades diferentes. Por isso há sempre o período chamado adaptação e há uns que conseguem fazê-lo rapidamente e outros não. Tivemos cuidado nas pesquisa que fizemos para encontrar os tais requisitos e esperamos que todos, ou a maioria deles, tenham a capacidade de se adaptar a um futebol diferente, a um meio social diferente, a um clima que é diferente, a uma alimentação e cultura diferente, enfim, a toda uma nova realidade que não perturbam de alguma maneira o que eles expressaram nos “futebóis”, se assim se pode dizer, de que são originários.
.
DC – Foram as suas primeiras escolhas?
MM – Não existiram primeiras e segundas escolhas. Foi feito um trabalho entre equipa técnica, director desportivo e presidente da direcção, no sentido de identificar perfis que se adequassem aos nossos propósitos. Nessa escolha entram o factor do perfil, mas também a questão financeira. E nesse campo existiram jogadores equacionados mas que foram descartados pelo que a Académica pode pagar a A ou B.
.
DC - Qual o sistema táctico que quer para a Académica?
MM – Eu não sou treinador de sistemas. Só para ilustrar eu não sou como o técnico Co Adriaanse fez no Porto, que apenas se fixou no sistema de três defesas, jogou com ele e teve sucesso. Até porque os clubes que tenho treinado são de média e pequena dimensão e gosto que as minhas equipas tenham flexibilidade. Ou seja, que consigam dar resposta às várias situações , adequando-se às diversas fases competitivas que formos tendo. Não vale a pena tentar encontrar um sistema para a Académica, vamos conseguir dar resposta em 4x2x3x1, 4x4x2 em losângulo e em 3x5x2. Estes são os sistemas referenciados, porque procuramos flexibilidade e cultura táctica.
.
DC - O facto de existirem várias nacionalidades dentro do balneário não impede essa rápida adaptação?
MM - Não me parece. Hoje em dia estamos constantemente a falar de coisas e quando elas caem na nossa casa vemos sempre problemas. Muito se fala de aldeia global, de globalização, da livre circulação de mercadoria e trabalhadores, bem como da abolição de fronteiras e do inglês como língua universal. Por isso tudo, não me parece um problema a variedade de culturas, nacionalidades e línguas que temos dentro do balneário. Agora, é evidente que seria mais fácil e mais aconselhável ter um plantel de 23 ou 25 portugueses, mas julgo que hoje essa é uma situação sem exemplo no nosso país, porque qualquer grupo tem uma diversidade de nacionalidades como a que a Académica tem. Uns mais outro menos, mas teremos de encarar o futuro com essa realidade. Não me parece que venha a existir retrocesso nessa tendência e julgo que a tendência de contratar jogadores de vários locais será cada vez maior.
.
DC - Como analisa o recente protocolo elaborado com o Tourizense?
MM - Julgo que é interessante. O protocolo com o Tourizense traz a possibilidade de manter um canal aberto entre os clubes e existindo quatro ou cinco jogadores - na casa dos 19/20 anos - no Tourizense que estão em fase de complemento formativo. E por isso, existe sempre a possibilidade de a qualquer momento, por leitura do bom trabalho efectuado por eles, de fazer com que ingressem na Académica. Por outro lado, há outros que também têm a possibilidade, por um abaixamento de forma ou recuperação de lesão, de jogar a um nível mais baixo para readquirirem a forma. Por isso penso que é um protocolo inteligente e que beneficia as duas colectividades.
.
Ricardo Busano
.
http://www.diariocoimbra.pt/13274.htm



| << Voltar ao Inicio