PROF. MANUEL MACHADO, VAMOS A “ISTO”!
Caro Prof. Manuel Machado,Hoje abro uma excepção, e não me vou dirigir aos “meus companheiros”.
Como medida “cautelar”, digo-lhe desde já que “isto” não é nenhum “Manual de Acolhimento”.
Quero falar consigo, na presunção de que o Sr. me leia. Não lhe vou dizer nada de transcendente, mas sinto-me com “autoridade moral”, para fazer uma espécie de “ponto de ordem” em relação ao “rebuliço” ( não encontro outro nome mais próprio) que anda a ser feito relativamente ao desvirtuamento dos valores académicos e, o que é mais grave (na opinião de alguns), aos sucessivos atropelos dos nossos Estatutos.
E o que temos ouvido?
Que a Académica caminha para o abismo. Que se perderam os valores e referências da nossa secular ( este é um termo que está na moda e que é utilizado por alguns, de acordo com as suas (deles) conveniências) Instituição.
Deixe-me falar-lhe um pouco de Coimbra, da Academia e da Académica. A “empreitada” não vai ser fácil, mas procurarei dar-lhe uma visão coerente e imparcial, de quem nasceu, cresceu e “militará” eternamente nesta cidade.
Quero desde já dizer-lhe que não somos diferentes dos outros.
Coimbra é uma cidade bonita, acolhedora, pacata, hospitaleira , “banhada” por um Mondego, que por força da “mão do homem”, se “aburguesou” no caudal, deixando de ser o “basófias” que só tinha “garganta” no Inverno, e mesmo assim era preciso que este fosse bem “re
gado”.Como sabe, a nossa “velhinha” e prestigiada Universidade alberga no seu seio, qualquer “coisa” como 25.000 estudantes distribuídos por 8 Faculdades, dispersas pela nossa Cidade.
É a maior Associação de Estudantes do País e uma das maiores da Europa.
Anualmente elege uma Direcção Geral que “tutela” 40 secções amadores ( 15 culturais e 25 desportivas).
Núcleos são 22 ( da Antropologia à Sociologia, respeitando a ordem alfabética).
É, de longe, a Associação de Estudantes mais eclética do País.
Das suas Secções desportivas, destaco-lhe 2 (duas), que num passado recente, mandando às “malvas” o seu estatuto de amadoras, quiseram “emancipar-se” desportivamente e recuperar o estatuto que já tinham tido no panorama competitivo Nacional.
Refiro-me ao Basquetebol ( foi de todas as secções desportivas a que mais títulos nacionais nos deu), e ao Andebol (modalidade que lhe é sobejamente conhecida) .
Voltando à questão dos estatutos, alguns notáveis (como o Prof, aliás e de certeza, tem vindo a acompanhar) vieram publicamente manifestar a sua profunda preocupação pelo rumo que a Académica/OAF está a tomar.
Se reparar, curiosamente, nenhum apresenta ou suporta de maneira objectiva, onde e quando os estatutos e os valores (gostam mais do termo tradição) estão a ser violados ou adulterados.
Utilizam velhos “chavões”, lugares comuns, falam na mística e pouco mais.
Voltemos às secções amadoras da Padre Vieira ( morada da Associação Académica) e das 2 (duas) Secções desportivas atrás referidas.
E porque escolhi o Basquetebol e o Andebol?
Exactamente para que haja coerência e consistência na minha conversa consigo. Os exemplos que abaixo vai ler, passaram-se com um ex- Presidente da Direcção da Académica/OAF durante 7 anos e um putativo (neste caso, reputado) ex-candidato derrotada nas últimas eleições para a Direcção da AAC/OAF, e antigo Presidente da Direcção Geral da AAC.
Comecemos por este último que decidiu recentemente, num espaço que o Diário de Coimbra lhe faculta regularmente, manifestar-se também com grande preocupação, quanto ao “abastardamento” de que a Briosa estava a ser alvo.
O Dr. Maló ( é dele que se trata) foi, num passado relativamente recente, Presidente da Secção de Basquetebol da Associação Académica. Empreendedor como é, e com o espírito de iniciativa que lhe é publicamente reconhecido, mobilizou à sua volta um conjunto de pessoas e vontades e resolveu “ressuscitar” a secção de Basquetebol devolvendo-lhe o protagonismo que ela durante anos teve no panorama desportivo Nacional.
Recrutou jogadores estrangeiros, portugueses de qualidade, e não teve outro remédio se não “profissionalizar” praticamente a equipa para a colocar na 1ª Divisão (na altura não se chamava liga profissional). E fê-lo! Mobilizou a cidade, angariou “fundos”, organizou espectáculos, mas cumpriu o seu objectivo. Reconciliou a cidade com o Basquetebol, o pavilhão encheu-se para ver jogar a Académica e subimos à 1ª Divisão.
Ninguém ( e bem) cuidou de se lembrar, de que era uma secção amadora, tutelada pela Direcção Geral.
Em resumo, o que o Dr. Maló, a sua equipa e a cidade quiseram, foi a “bola no cesto” e o somar de vitórias, para voltar a ver grandes espectáculos de basquetebol em Coimbra.
O fim da história não foi brilhante ( acabámos na 2ª Divisão, sem honra nem glória e “cheios” de dívidas).
A “história” do Andebol ( e para encurtar razões) o Prof. conhece bem. Importaram-se Treinadores Profissionais, contrataram-se os melhores jogadores nacionais e estrangeiros, tivemos praticamente a selecção nacional de Andebol na Académica, mobilizamos a cidade, o Pavilhão abarrotava de público, e por uma “unha negra” não fomos campeões nacionais.
Em resumo, o que o Dr. José Co
roa, a sua equipa e a cidade quiseram foi a “bola na rede”.O fim da história foi mais trágica. Cheques sem cobertura, processos em catadupa nos Tribunais, jogadores a “mendigarem” refeições pelos restaurantes da cidade, para não passarem fome, dirigentes com as suas carreiras profissionais e familiares “arrasadas”, e a Académica caiu no “abismo” dos Distritais durante largos anos.
Nota à margem: Onde estavam os Estudantes atletas que tanto apregoam para o futebol?
Que fique bem claro, que nada me move (antes pelo contrário) contra estas duas incontornáveis figuras da vida da nossa Académica.
Mas que raio de moral é esta! Veja lá o que fizeram a duas prestigiadíssimas SECÇÕES AMADORAS. É importante referir, que o fizeram com a conivência irresponsável da Direcção Geral.
Em 1984 ( mais propriamente em Julho da época desportiva 84/85) a Direcção Geral na pessoa do seu Presidente, Ricardo Roque e o saudoso Engº Jorge Anjinho como Presidente do CAC, assinaram um protocolo, com a finalidade de regressarmos à “CASA MÃE”, com o estatuto de Organismo Autónomo de Futebol.
Retenho, dos 15 ou 16 artigos que suportaram o referido protocolo, aquele que concede à ACADÉMICA OAF a prática e o enquadramento no DESPORTO DE COMPETIÇÃO e que assegura a preocupação da FORMAÇÃO dos seus atletas, no plano cívico e escolar .
Caro Prof, falemos agora um pouco da nossa BRIOSA e, num breve resumo, daquilo que foi o nosso “espólio”desportivo, acumulado desde 1984, como OAF.
Mais de 60% das épocas andámos “hibernados” pela 2ª Divisão Nacional, posteriormente chamada Divisão de Honra.
A melhor classificação que conseguimos na 1ª Divisão ( se não me falha a memória) foi um 7º lugar com o Vítor Manuel (aliás deixe-me aproveitar para lhe dizer que é um autêntico “crime” este sabedor Treinador e exemplar cidadão, não “caber” no Futebol Nacional).
Nos últimos 5 anos, ( quantos levamos seguidos - um “luxo” bem sofrido!- de Superliga) “safámo-nos “ sempre milagrosamente em cima da “meta”.
O ano passado, a 8m do fim, o milagre deu-se!
Há 2 anos, fomos mais “folgados”. Foi na penúltima jornada!
Há 3 anos, foi uma “benesse” dos deuses. No último jogo, não nos bastava ganhar. Dependíamos de terceiros e, mesmo assim, fugimos à descida.
Como vê Prof. , estamos “calejados” e claramente já merecedores de um certificado de verdadeiros e genuínos sofredores.
Não são precisos grandes estudos sociológicos, para perceber o “divórcio” da cidade com a sua BRIOSA. O produto tem sido claramente de má qualidade, o que explica a média de cerca de 6.000 espectadores por jogo. Eu percebo perfeitamente a rapaziada. Entre um jogo sofrido e sofrível em que a derrota é o mais provável, e 3 ou 4 “shot´s” para aquecer o “corpo” para uma noite garantidamente de sucesso, as “economias” vão direitinhas para a noite.
Temos todos presente, o excelente trabalho que o Prof. desenvolveu nos clubes por onde passou. Sem menosprezo pelo trabalho de “sapa” que deixou em Moreira de Cónegos, prefiro destacar a sua “performance” no Guimarães (até dói escrever o nome!) e mais recentemente no Nacional.
Na maior parte da minha vida profissional, habituei-me a trabalhar por objectivos. E gosto. E de preferência “altos”, para nos diferenciarmos da concorrência.
Mas obviamente, têm que ser mensuráveis, fazíveis e temporais!
Gosto da maneira pragmática como quer “atacar” o campeonato. Primeiro, e rapidamente, “amealhar” os pontos necessários para nos tirar do “sufoco” dos últimos anos ( se isso acontecer, garanto-lhe que devolvo imediatamente o meu certificado de genuíno sofredor . Repare no termo “genuíno”. É que nem todos o são!).
Depois sim. “Olhar” mais para cima e o que vier é ganho.
Quem nunca geriu “budgets” ou trabalhou por objectivos é que pensa, pacoviamente, que o valor do Investimento feito tem que ter “obrigatoriamente” a tradução correspondente em termos de resultados (isso seria realmente o ideal!).
O recrutamento no futebol é, rigorosamente, como o das Empresas.
Define-se previamente as funções a preencher, as características e o “perfil” do profissional a contratar e, depois, de maneira rigorosa procura-se no mercado quem preencha os requisitos pretendidos.
Os erros de “casting”, por mais cuidado que se tenha, são inevitáveis. Todos os que têm essa responsabilidade os cometem, e o Prof. não foge à regra.
Mas não hesite Prof. Manuel Machado. Pagam-lhe para decidir. Não adie a resolução de um problema. Na primeira oportunidade, resolva-o que todos ficamos a ganhar com isso.
Queria por último fazer-lhe alguns (poucos) pedidos:
1- “BLINDE” O BALNEÁRIO. Se for preciso, ponha-o a falar a uma só voz. Discipline a equipa. Não permita a existência de “jogadores problema” e muito menos, permita “fugas de informação”.Faça uma equipa coesa, forte e disciplinada. Se tiver que fazer treinos à porta fechada até ao fim da época, faça-o. A Académica é uma equipa profissional e se por aí passar a estabilidade emocional e psicológica do grupo de trabalho, nós entendemo-lo.
2- FORMAÇÃO. Tenho a certeza que o Prof. é sensível a esta área fundamental para a vida da nossa Instituição até porque “militou” nela durante alguns anos. Acompanhe os escalões de Formação e, se possível, procure regularmente ver como estão a trabalhar. Nos Juvenis e nos Juniores, estão 2 novos e jovens Treinadores que muito agradecerão a sua experiência e saber. Não se esqueça que “herdou” 7 jovens jogadores provenientes dos referidos escalões de Formação. Tenho a certeza que o Prof. poderá e saberá aumentar este “pecúlio”.
3- MANCHA NEGRA. É o melhor e mais saudável grupo de apoio a um clube que eu conheço. Disponíveis, solidários, sofredores, irreverentes, estão SEMPRE com a Briosa nos bons e nos maus momentos. Ao frio e à chuva, à boleia ou organizados, “percorrem” o país de Norte a Sul, atrás da sua AMADA. Prof. Manuel Machado, sempre que possível, deixe-lhes um “mimo” que eles bem merecem. Um simples gesto, chega-lhes.
4- TRADIÇÕES ACADÉMICAS. Pese o facto de não passarem directamente por si, não deixe de as preservar e estimular. Mas não deixe que as adulterem. Um dia, e para memória futura de TODOS os académicos, mas fundamentalmente dos mais novos, conto-lhe em pormenor ( e em versão verdadeira) o maior “enxovalho” e “humilhação” pública que a nossa Instituição sofreu na sua centenária existência. Eu não tenho vergonha em dizer-lhe publicamente que chorei. A nossa “BRIOSA”, que foi sempre independente, irreverente, autónoma e liderante ao longo da sua existência, viu-se “obrigada” (num acto gratuito de pura leviandade) a entrar no estádio de Alvalade de CAPA pelos ombros, para servilmente se associar a uma jornada de luto nacional contra a arbitragem promovida pelo Sporting .
Caro Prof. Manuel Machado, acredito em si e no seu trabalho. Assumo que não sou “flor que se cheire”. Assumo que não sei perder, mas aprendi a saber esperar.
Estou (como todos estamos) “frustrado” com os resultados da pré época.
Mas não faço disso um drama, e muito menos motivo de gozo.
Para mim, basta que aplique a “receita” e os ingredientes que utilizou nos outros clubes por onde passou.
Eu estou preparado para “saborear” com prazer esta época desportiva.
É a minha convicção.
Sinta-se bem entre nós e nesta grande Instituição.
VIVA A BRIOSA!



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