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  - Sábado, Janeiro 06, 2007

Académica-V.Setúbal: recordações infantis de uma final perdida

Na véspera da recepção aos sadinos, na primeira eliminatória da Taça de Portugal que conta com a presença de equipas da Liga principal, vêm-me à memória as recordações da final de 1967, em que fomos derrotados precisamente pelo Vitória de Setúbal.
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Se, um ano antes, já ouvia na rádio os relatos da Académica, na companhia da minha mãe e da minha avó paterna, foi nessa temporada, aos oito anos, que comecei a assistir aos jogos em "casa", acompanhado pelo meu pai.
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Sem o saber, descobria a Briosa naquela que foi a sua época dourada. No Campeonato, lutámos pelo título quase até ao fim, acabando por ficar no 2º lugar, a três pontos do Benfica. Recordo o jogo da Luz, em que perdemos por 2-1 já muito perto do fim, depois de Maló ter defendido um penalti do Eusébio (o único guarda-redes do Mundo que o conseguiu nesse ano).
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Chegámos ao fim da 1ª volta empatados com os lisboetas e assim nos mantivémos até à deslocação a S. João da Madeira, na jornada anterior à recepção aos "encarnados". Aí, fomos vítimas de um verdadeiro "roubo de Igreja" (golo limpo anulado a Artur Jorge, golo da Sanjoanense em nítido "fora-de-jogo" e expulsão de Ernesto por protestar) e perdemos por 1-0. Nesse dia, pela primeira vez, chorei de raiva e tristeza pela Académica.
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No jogo com o Benfica, o velho estádio do Calhabé estava "a rebentar pelas costuras", tendo, inclusive, sido montadas cadeiras na pista de cinza. Relatos da época falam numa assistência de 45 mil pessoas (recordo que não havia cadeiras nas bancadas e que havia o "peão" do lado da Maratona, onde toda a gente ficava de pé). Temendo a confusão, o meu pai não me quis levar, pelo que fiquei a sofrer pela rádio. Tudo nos correu mal: o defesa Curado lesionou-se a meio da 1ª parte e, como ainda só era permitida a substituição do guarda-redes, jogámos com 10 o resto do jogo. Pouco depois do intervalo, o avançado benfiquista Nelson, de ângulo incrível, falha o remate e engana Maló, fazendo o resultado. Foi a nossa única derrota em Coimbra nessa época. Até ao final da prova, ainda recuperámos dois pontos e só a uma jornada do fim os "lampiões" puderam fazer a festa.
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A Taça, então disputada a duas "mãos" até à final, permitiu-nos uma pequena vingança. Nos quartos-de-final, defrontámos o Benfica (que apresentou alguns reservistas) no Municipal e ganhámos por 2-0. Na Luz, a derrota por 2-1 foi suficiente para seguirmos em frente.
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Nas meias-finais, dois triunfos sobre o Braga (1-0 na urbe bracarense e 4-1 em Coimbra, depois de estarmos em desvantagem ao intervalo) colocaram-nos no Jamor. No outro confronto, o V. Setúbal afastou o F.C. Porto (salvo erro, com 3-1 no Bonfim e 4-4 nas Antas).
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O encontro decisivo opunha, assim, dois clubes que se vinham afirmando ao longo da década de 60 e que haviam constituído as duas grandes sensações do Campeonato: a Briosa de Mário Wilson (vice-campeã) e o Vitória de Fernando Vaz (4º classificado).
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A partida disputou-se no início de Julho, estava eu já de férias na Praia de Mira. Ciente das dificuldades do jogo, tive um pressentimento de que as coisas não iam correr bem (algo que ainda hoje por vezes me sucede) e não quis ouvir o relato. Fui, por isso, brincar e jogar à bola com alguns amigos, todos eles a torcer pela Briosa.
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A partida tem início às cinco da tarde e, pouco depois, um clamor atravessa a praia. A Académica havia inaugurado o marcador. Entusiasmado, dirijo-me à barraca e fico a saber que, logo aos três minutos, um "livre" directo do "lateral" direito Celestino nos coloca em vantagem. Recordo-me das palavras da minha avó: "estás a ver, não quiseste ouvir!".
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Mas o certo é que não estava nessa. Voltei para a brincadeira e, de tempos a tempos, ia perguntando a um senhor que tinha consigo um rádio a marcha do resultado. Tudo continuava a correr bem, até que, após mais uma das minhas interrogações, o homem, ao longe, ergue um dedo de cada mão. Acontecera o que temia: a um minuto do intervalo, o "ponta-de-lança" setubalense José Maria empatara o jogo.
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Desolados, continuámos a brincadeira. Provavelmente, teremos ido ao banho (não me recordo desse pormenor). Mas, no Jamor, tudo continuava na mesma. Como disse a minha avó: "tudo como dantes, quartel em Abrantes". Chegam ao fim os 90 minutos e o 1-1 mantem-se. Seguem-se 30 minutos de prolongamento.
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Vamos dar uns toques na bola para descomprimir. Está quase tudo perto das barracas onde existem rádios. Sabemos que o resultado continua sem sofrer alteração e que vai haver mudança de campo. Mas, três minutos depois desta, Guerreiro dá vantagem aos sadinos, em lance que gerou dúvidas quanto à sua legalidade. Entretidos a jogar, não nos apercebemos que os setubalenses passam para a frente no marcador. Só o saberemos seis minutos mais tarde, quando uma grande agitação volta a sacudir o areal. Ernesto, numa oportuna emenda à boca da baliza, restabelece a igualdade. Pensamos que estamos em vantagem mas a ilusão é breve: alguém se encarrega de nos desenganar. Lembro-me da empregada dizer para a minha avó: "Ainda bem que a senhora não soube do golo do Setúbal há bocado. Aí é que teria ficado desolada".
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No final dos 120 minutos, 2-2. Segundo o regulamento de então, jogar-se-iam sucessivos prolongamentos de 10 minutos até uma das equipas marcar o "golo de ouro" (na altura, não se chamava assim).
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Passa das sete e meia. Vamos para casa. No caminho, estamos atentos aos relatos que se ouvem e aos cafés onde as televisões estão ligadas. Se o jogo continua, é porque ninguém marcou. São quase oito horas. Chegamos a casa, onde se ouve nitidamente o rádio da tasca do rés-do-chão. Até que se ouve o golo...do Vitória. Ainda hoje me lembro das palavras do locutor: "Jacinto João, à boca da baliza, faz o golo do triunfo". Ao fim de 144 minutos (leram bem: cento e quarenta e quatro) terminara a mais longa partida oficial de futebol disputada em território nacional. Por muito pouco, a Académica perdia a oportunidade de repetir a conquista de 1939. Lembro-me de ter ido para o quarto, a chorar, e de a minha mãe me ter ido confortar. Mais tarde, o meu pai, que assistira ao jogo na televisão, chega igualmente desolado e abraça-me. Mal imaginava o quanto haveria de sofrer nos 40 anos seguintes!

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