A fábula da gata coxa

Era uma vez uma gata preta, chamada Briosa. De idade avançada, revelava a aparente decadência de um animal que vira o seu habitat natural sofrer transformações que lhe dificultavam a adaptação ao meio. Contudo, mantinha a altivez de outrora.
No sítio onde vivia, a concorrência era feroz e as lutas pelo território e pelo acesso à alimentação eram constantes. Aplicava-se, pois, a velha máxima darwinista que postula a sobrevivência dos mais aptos.
Nos tempos que corriam, a velha felina possuia algumas armas que lhe permitiam fazer frente aos que a ameaçavam: uma excelente visão, expressa no seu olhar bem penetrante, e uma razoável musculatura e agilidade. As patas dianteiras também não se moviam mal e as unhas mostravam-se relativamente afiadas. Por isso, nas disputas constantes que se travavam, conseguia, frequentemente, confundir os seus oponentes e criar-lhes enormes dificuldades.
Porém, a gata manifestava, igualmente, gritantes vulnerabilidades. Desde logo, porque as suas presas se encontravam bastante desgastadas. Assim, era frequente ter a presa à sua mercê mas ser incapaz de lhe dar o golpe final.
Mas o seu grande problema estava nas patas traseiras, em especial na direita. Com efeito, a esquerda, embora mostrasse umas unhas pouco afiadas, apresentava uma boa musculatura na coxa, que a impulsionava para o ataque e lhe permitia formar alguns saltos. Porém, devido a uma estranha enfermidade, a direita não funcionava e a pobre bichana andava com ela frequentemente ao pendurão. Então, os seus adversários, pressentindo essa inferioridade, acabavam por lançar-se sobre ela, impedindo-a de caçar as presas tão necessárias ao seu sustento. A gata começava a definhar e, caso não resolvesse os seus problemas de saúde, poderia mesmo vir a perecer de inanição.
Para evitar que a Briosa corra risco de vida, é essencial que os seus "donos" a levem ao veterinário, procurando, prioritariamente, tratar-lhe da pata doente. Claro que é preciso pensar na forma de custear a operação, de forma a que, para cuidar de uma mazela, a felina não perca outras qualidades fundamentais para a sua sobrevivência. E, se ainda sobrasse dinheiro, também seria de considerar a hipótese de implantar uma nova presa na sua dentição.



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