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  - Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

AAC-Boavista: farsa, drama e violência em três jogos nos anos 70


Agora que se aproxima mais uma recepção ao Boavista, vêm-me à memória as recordações, algo imprecisas, de encontros com os "axadrezados" nas minhas adolescência e juventude. Neste caso, vou contar algumas "estórias" que marcaram três encontros disputados no velho Municipal, na década de 70.
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O primeiro decorreu na época de 1970/71, na qual a Briosa, então treinada por Juca, terminou no 5º lugar. Por sua vez, os boavisteiros, que em 1966/67 (nossa época dourada) subiram da 3ª à 2ª Divisão e na época seguinte ao Campeonato principal, ainda tinham apenas como ambição a manutenção no escalão maior.
Nessa altura, a Académica colocou-se a ganhar por 2-0 (não me recordo quem marcou os golos) mas os visitantes, a meio da 2ª parte, reduziram a diferença e foram-nos empurrando para a defesa. A um minuto do fim, a bola, aliviada por um jogador nosso para o meio-campo adversário, acabou por sair pela linha lateral no enfiamento da grande área adversária. Rapidamente, o guarda-redes portuense corre para executar, ele próprio, o lançamento lateral. Para espanto geral, o árbitro impede-o e ordena que a reposição do esférico seja feita por um colega. Pouco depois, o jogo termina com a nossa vitória por 2-1.
Mas a polémica estava lançada, pois o Boavista apresentou declaração de protesto, alegando erro técnico de arbitragem. É então que a farsa começa. Um jornalista do "Diário de Coimbra", já falecido, adepto da Briosa e grande conhecedor das regras do jogo, dirige-se à cabine dos juízes, onde encontra o árbitro acabrunhado, consciente do erro que havia cometido. "Estou feito. Nem sequer posso alegar que a bola foi mal lançada, pois, nesse caso, teria de ser um jogador da Académica a repôr a bola em campo". É então que o referido periodista "tira um coelho da cartola": "Diga que o guarda-redes lançou a bola com um pé na pista de atletismo e que apenas o mandou corrigir essa situação. E que ele é que pensou que você o estava a proibir de lançar". Após um momento de perplexidade, o homem do apito viu que podia estar ali a sua salvação. Mas havia um problema: "E o delegado da Central (a então Comissão Central de Árbitros)?". "Não se preocupe que eu trato dele", retorquiu o jornalista. Acontece que o referido delegado, igualmente já falecido, era um homem íntegro mas bastante míope, sendo portador de umas lentes muito graduadas. Não foi difícil ao repórter convencê-lo de que não tinha reparado no (pretenso) facto de o guardião "axadrezado" ter colocado um pé na pista de cinza. Foi essa a versão do árbitro, veiculada em toda a imprensa desportiva da época, e o protesto dos boavisteiros acabou por ser julgado improcedente.
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Cinco anos depois, os papéis haviam-se invertido: a Académica (agora travestida em Clube Académico de Coimbra) lutava desesperadamente pela permanência, enquanto que, com a contratação de Pedroto (o mais conceituado técnico português de então), surgia o "Boavistão", com pretensões de lutar pelos lugares cimeiros da classificação. A época anterior já reflectia esse contraste: nós tivemos de disputar a "liguilla" (Torneio de Competência entre os 13º e 14º da 1ª Divisão e os dois segundos das duas zonas em que, ao tempo, se dividia a 2ª Divisão. Os dois primeiros ficariam no escalão principal), onde nos salvámos com alguma dificuldade; os "axadrezados" asseguraram o 4º posto, que dava acesso às competições europeias, ao baterem o V. Guimarães, seu adversário directo, na última jornada, na Cidade Berço, com uma arbitragem controversa de António Garrido, que viu o seu carro incendiado pelos adeptos vitorianos. E até ganharam a sua primeira Taça, ao vencerem o Benfica por 2-1, no antigo Estádio de Alvalade.,
Face à má 1ª volta realizada, a nossa equipa foi reforçada com dois jogadores cedidos pelo Sporting: Camilo e Joaquim Rocha. A meio da 2ª volta, Vítor Campos, "velha glória" da Briosa, que havia "pendurado as botas" no final da época anterior, resolvera voltar a jogar para ajudar a equipa a sair da situação em que se encontrava. O seu regresso, em Braga, não poderia ter sido pior: "canto" contra os "pretos" e o veterano jogador a cabecear para a própria baliza. Um lance infeliz que ditou o resultado do jogo.
A três jornadas do fim, recepção ao Boavista, então no 2º lugar e ainda em luta pelo título. Logo, os "axadrezados" não podiam falhar. Pela nossa parte, uma derrota poderia implicar uma nova presença na "liguilla" O jogo não correspondeu às expectativas e tudo indicava que terminaria sem golos. Mas, a oito minutos do fim, o drama: Salvador (um dos bons brasileiros que passou pelo nosso futebol) rematou frouxo. Mas Vítor Campos, que viera ajudar a defesa, esticou a perna para afastar a bola. Porém, com tanta infelicidade o fez que desviou a sua trajectória, acabando o esférico por se anichar na baliza de Melo, traído pelo desvio do seu companheiro. Mais uma vez, a "velha glória" ficava ligada a uma derrota. Algo que o atleta (que tanto dera à Briosa) não merecia.
Felizmente, no final da temporada, classificámo-nos no 11º lugar e assegurámos, desde logo, a permanência. Por seu turno, o Boavista foi vice-campeão (a dois pontos do Benfica de Mário Wilson) e repetiu a vitória na Taça, batendo o V. Guimarães por 2-1 na final, jogada no velho Estádio das Antas.
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Foi exactamente numa partida dos quartos-de-final da Taça, que, três anos depois, em 1978/79, se registaram actos de violência, envolvendo adeptos academistas.
Nessa temporada, a equipa seguia em último lugar no Campeonato e a despromoção era mais que certa. Restava, assim, a Taça para salvar a época. Mas o Boavista, a lutar, mais uma vez, pelos lugares europeus, não era o adversário mais apetecível.
No 1º tempo, a partida até foi equilibrada, mas um erro da nossa defesa, perto da meia hora, permitiu aos visitantes a inauguração do marcador, através de um penalti que terá deixado dúvidas em alguns apaniguados conimbricenses. Apesar de tudo, até aqui, tudo normal. O pior estava guardado para a etapa complementar.
Logo nos primeiros minutos da 2ª parte, após um lance disputado na nossa área, o árbitro aponta novamente para a marca de grande penalidade. Depois da surpresa, a revolta. A indignação alastra entre a massa associativa, que se manifesta ruidosamente. O penalti é convertido e a indignação aumenta: chovem pedras sobre os fiscais-de-linha e há quem faça menção de invadir o terreno de jogo. O árbitro, que já havia reiniciado o encontro com a bola ao centro, interrompe a partida e exige um reforço policial. Chega o Corpo de Intervenção da PSP e o encontro volta a recomeçar com...nova bola ao centro. Pouco depois, penalti (muito duvidoso) contra o Boavista e os "pretos" a reduzir a desvantagem. À entrada do último quarto de hora, mais uma falha defesiva permite aos "axadrezados" aumentar a vantagem. O lance é legal mas os nervos estão à flor da pele. Apenas a presença da "polícia de choque" evita a invasão. Por fim, a partida termina com a vitória boavisteira por 3-1.
No final, os adeptos conimbricenses dão largas à sua revolta e concentram-se em frente à porta principal do Calhabé. Alguns sobem o morro que então existia entre a Brotero e a Igreja. Caem pedras sobre a Polícia e o autocarro dos visitantes. À chuva de pedras, segue-se uma violenta carga policial sobre os academistas. Que, entretanto, voltam a reagrupar-se. Assim, só por volta das 23 horas e depois de mais algumas escaramuças entre adeptos e forças policiais, a equipa de arbitragem abandonou o Estádio.
Entretanto, desta vez fomos nós que protestámos o jogo, também por erro técnico da arbitragem (a partida, após ter sido interrompida, recomeçou com nova bola ao centro e não com bola ao solo). Ao mesmo tempo, o clube foi alvo de processo disciplinar, que teve como consequência a interdição do Municipal por dois jogos. Quanto ao protesto, foi indeferido no Conselho Técnico mas julgado procedente pelo Conselho Jurisdicional.
O jogo foi repetido e voltámos a perder, agora por 2-1, em encontro que decorreu dentro da maior normalidade. Estivémos a perder por dois golos de diferença e reduzimos a desvantagem já perto do final. O Boavista acabaria por conquistar a sua terceira Taça, ao vencer o Sporting por 1-0, na final disputada no Jamor.

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