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  - Terça-feira, Março 06, 2007

Da(-)me pena...

Linear, desde logo, em meu entendimento, é que Dame N’Doye para o ano não vestirá a camisola negra da Briosa. O jogador sairá em litígio com esta direcção, o caso arrastar-se-á eventualmente pelos tribunais comuns, até que algum despacho ou acórdão referia a liminar incompetência do tribunal para o julgamento de questões desportivas. Um processo paralelo na Liga, cuja decisão remeterá para o exposto nos regulamentos de transferências da UEFA e o jogador, ao final, poderá considerar-se livre de qualquer ligação contratual desportiva com a Briosa.
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Um pequeno exercício de futurologia,caso o jogador não aceite a carta de renovação imediata do contrato que deverá seguir até dia 30 de Abril de 2007, que serve para que percebamos, pois, que não existe neste futebol moderno, qualquer vínculo de gratidão que ligue jogador e clube.
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É por isso que chamamos a este futebol de «profissional». Dame quando chegou à Académica, era um jogador rejeitado por uma mão cheia de clubes franceses de meio da tabela da segunda liga gaulesa, jogador do galáctico campeonato senegalês. Um perfeito desconhecido, com um sobrenome que lhe conferia o estatuto de poder mostrar algo na Briosa. Lutou por uma oportunidade, mostrou que não era apenas um «jogador de treino» e sedimentou-se na primeira equipa da Associação Académica de Coimbra por mérito próprio, embora ache que a inexistente dívida de gratidão ainda é maior do jogador em relação à nossa instituição, do que o contrário. De qualquer forma, como este futebol que assistimos nas bancadas tem o epíteto de «profissional» essa dívida é mesmo assim…inexistente. Res Nullie.
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No futebol moderno há duas forças em disputa. Jogadores e empresários (« os amigos que aconselham») de um lado, direcção e treinadores do outro. Lutam para ficar o mais tempo possível num clube, os primeiros, quando as qualidades futebolísticas não abundam. Desesperam pela transferência quando o seu nome é referenciado demasiadas vezes por cadernos de olheiros e capas de jornais, pela rotatividade e pelos números das transferências envolvidos, pelas percentagens que auferem. Fundamental, portanto, que dos dois lados da trincheira estejam verdadeiros profissionais, qualificados para as suas funções que na altura adequada saibam programar, agir e decidir. Profissionais que consigam perceber desde cedo a qualidade de um jogador, analisar o seu potencial em jogo, a sua margem de evolução e os momentos apropriados para renovações efectivas de contratos. Neste capítulo, tenho de dize-lo, a nossa Associação não é, ao nível do seu elenco directivo, um clube profissional no tratamento específico que se deve dar ao futebol. Em primeira linha o director desportivo, ultima ratio o Presidente, responsável pela pirâmide funcional que edificou.
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O director desportivo é responsável pela articulação dos interesses desportivos do clube com futuras decisões directivas baseadas nos condicionalismos financeiros. Deve indicar sem margens para dúvida, entre outras funções, quais os jogadores que no seu subjectivo entendimento devem ou não renovar e dar essa indicação à direcção. É uma linha de continuidade desportiva que vai muito para além, mesmo, dos treinadores que estejam pontualmente ao serviço do clube. Será que depois de um par de jogos do Dame, o director desportivo deu a indicação (visível a qualquer adepto de futebol) que o jogador deveria, o mais rapidamente possível, renovar o vínculo laboral com a Briosa? Que seria um jogador para tentar um contrato a longo prazo numa altura em que o jogador estaria numa posição de fragilidade negocial?
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O poder de antecipação às circunstâncias e a atenção aos mais ínfimos pormenores do mundo do futebol são características essenciais desta figura. Algo que sente que não existe de todo, na Académica. Se o director desportivo marcou a sua posição e não foi ouvido apenas se poderia demitir ou deixar veementemente expresso, de forma pública, o que pretendia. Se não o fez apenas poderia ser dispensado das suas funções.
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Assim como um responsável pelo departamento de futebol (na avaliação de capacidades do jogador), departamento jurídico (que elabora o contrato) e Presidente (responsável pela estrutura orgânica) que erram de forma tão crassa – falamos de negócios de algumas centenas de milhar de euros fulcrais para a sobrevivência financeira da Instituição – têm de ser responsabilizados no momento (e forma) em sede própria, em minha perspectiva.
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Repare-se que a Académica tem falhado essencialmente no momento de comunicação com os jogadores no momento de renovações contratuais. Que invariavelmente os processos negociais acabam por não se concretizar com as partes a saírem em litígio. Porque falham? A este problema a direcção não consegue dar resposta, mas a solução deverá estar na mesma razão que de forma intransigente consegue bons acordos no que toca a transferências de jogadores. Inflexibilidade negocial, pouquíssimo diálogo e distância, mesmo frieza, em relação à contraparte. Se este tipo de mecanismos pode resultar por intimidação a posições distantes, cedo se percebe que é difícil «intimidar» jogadores como Zé Castro, Zé António, Lucas e a mais recente estrela meteórica Dame.
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Porque não existe na Briosa um profissional que faça a ligação entre atletas e elenco directivo, promovendo a articulação cuidada das negociações. O futebol da Académica é em regra constituído por figuras distantes e com pouco peso no balneário, personagens nas quais os jogadores não vislumbram pontos de confiança. Esse é o maior problema da direcção de
José Eduardo Simões.
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Finalizando, no caso Dame, a culpa morrerá solteira, por entre acusações, revelações de mentiras e verdades escabrosas. Dame não é inocente, longe disso. A direcção,por seu lado foi incapaz de reagir antes da acção do jogador. A Briosa e todas as partes envolvidas sairão sempre prejudicadas de todo este processo. Porque não se ter sido capaz de prever, antecipar, programar, mais uma vez, o futebol académico.

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