AAC-FCPorto: Oito minutos para a reviravolta... e oito dias para a revolta


Data da época de 1970/71 (ou seja, há 36 anos) a nossa última vitória, em Coimbra, sobre o FC Porto.
A Briosa, então treinada por Juca, realizou uma boa época, tendo terminado o "Nacional" na 5ª posição, que permitiu a qualificação para a Taça UEFA.
Por seu turno, o FC Porto atravessava a sua fase mais negra, estando, então, bastante distante do poderio actual. Os treinadores sucediam-se a um ritmo vertiginoso mas há uma dúzia de anos que não era campeão.
Nessa época, os jogos entre as duas equipas eram marcados por um aspecto curioso: o visitante fazia, normalmente, melhores resultados que o visitado.
Dirigi-me com o meu pai (então treinador do basquetebol academista) ao antigo "Municipal" e foi ao lado dele que assisti ao jogo, na antiga Central coberta, do lado da Igreja, curiosamente no enfiamento da baliza onde seriam marcados todos os golos da partida.
O jogo decorria em toada equilibrada, quando, pouco antes da meia hora, na sequência de um "canto" na direita contra a Académica, o "ponta-de-lança" portista Custódio Pinto (conhecido por "cabecinha de ouro") fez jus ao nome e inaugurou o marcador.
Próximo do intervalo, novo "canto" do mesmo lado, a nossa defesa não afastou a bola e o extremo-esquerdo Nóbrega a fazer o 2-0. Os adeptos nortenhos, concentrados no antigo "peão" (do lado da passagem de nível), exultavam. Recordo de o meu pai dizer, desalentado: "Quando eles cá vêm, é sempre isto!".
Após o intervalo, os visitantes podiam ter "morto" o jogo, mas Melo, o nosso guarda-redes, fez uma grande defesa, quase por instinto. A Briosa procurou reagir mas o tempo passava sem que o marcador se alterasse. "É no primeiro quarto de hora da 2ª parte que se viram os jogos. Já lá não vamos", sentenciava o meu pai, à passagem do minuto 15. Felizmente, estava enganado.
Dois minutos depois, após uma perda de bola do meio-campo portista, Manuel António isolou-se e, quando o guardião adversário saiu dos postes, fez-lhe um "chapéu" e reduziu a diferença.
Os "pretos" animaram e, passados três minutos, "canto" da direita, confusão na área nortenha e António Jorge (o nosso segundo "ponta-de-lança") a desviar o esférico para as redes, restabelecendo a igualdade.
Com o Estádio em delírio e os "azuis e brancos" completamente atarantados, a Briosa continuou ao ataque e, no 25º minuto, Serafim, na meia-esquerda e de fora da área, rematou forte e cruzado, sem hipóteses para o guarda-redes portista. Em oito minutos, consumara-se a reviravolta.
A partir daí, a Académica abrandou, procurando guardar a vantagem, objectivo plenamente conseguido, para gáudio dos numerosos adeptos presentes.
No final, o FC Porto protestou o jogo por uma razão caricata: quando da marcação do golo do empate, um jogador nosso foi buscar a bola dentro da baliza e mandou um "balão" para o meio-campo. Com tanto azar que a bola bateu na nuca do árbitro, deixando-o bastante combalido.
Ora, no nosso 3º golo, havia um jogador em "fora-de-jogo" posicional, que, de acordo com as regras da época, deveria ter sido sancionado. Então, os portistas alegaram que esse erro fora fruto da bolada de que o juíz havia sido vítima e que o deixara, segundo alegaram, sem condições físicas para poder continuar a apitar a partida. Claro que o protesto, de tão ridículo, foi considerado improcedente.
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Outro jogo de que me recordo, embora amargamente, realizou-se na época de 1985/86.
A Briosa, então treinada por Vítor Manuel, tinha mantido a estrutura da época anterior e realizava um Campeonato relativamente tranquilo.
Por seu turno, os "dragões", orientados por Artur Jorge, encontravam-se na fase ascendente do seu poderio, tanto a nível nacional como internacional, que os levaria, no ano seguinte, à conquista da seu primeiro título europeu. Os seus principais jogadores eram o "ponta-de-lança" Gomes (seis vezes "Bola de Prata" e duas "Bota de Ouro" da Europa) e o jovem extremo-esquerdo Futre, então uma das grandes promessas do furebol nacional.
Num dia chuvoso, dirigi-me ao "Municipal" com o meu habitual grupo de amigos e colocámo-nos, como habitualmente, nos nossos lugares por cima do túnel da Central coberta.
O FC Porto entrou a pressionar mas a Académica defendia-se bem. Até que, cerca da meia hora, entrou em jogo o árbitro Raúl Ribeiro, de Aveiro (mais propriamente, de Águeda). Futre cai na área e o juíz marca penalti. Gomes remata forte, mas sobre a barra.
Mas a nossa alegria foi "sol de pouca dura". Pouco antes do intervalo, Futre aproveita uma desatenção da nossa defesa para inaugurar o marcador.
Contudo, poucos minutos após o descanso, numa jogada de insistência do nosso ataque, Rolão, com um remate rasteiro, repõe a igualdade.
A partir daqui, a dualidade de critérios da arbitragem começa a ser evidente mas o certo é que a Briosa consegue resistir.
Com o terreno cada vez mais empapado, atinge-se o minuto 90. Na altura, não era exibida a placa com o tempo de compensação e os adeptos academistas impacientam-se e pedem o fim do jogo.
Três minutos depois, Futre foge pela meia esquerda com Kikas à ilharga. Entra na área e "mergulha na piscina". Raúl Ribeiro, próximo do círculo central (ou seja, a mais de 30 metros do lance) aponta para a marca de grande penalidade. A indignação é grande entre a nossa massa associativa. Chovem objectos no relvado e há mesmo uma tentativa de invasão de campo. Por fim, o penalti é marcado. André remata colocado ao canto inferior esquerdo e dá a vitória à sua equipa.
Fora do Estádio, a revolta é enorme. Um amigo diz-me: "Tenho vontade de nunca mais ir ao futebol". Após algumas escaramuças com a polícia, o árbitro sai do recinto por volta da uma da manhã (o jogo acabara às cinco da tarde).
Mas as coisas não ficariam por aqui. Correram as mais diversas "estórias" sobre Raúl Ribeiro: que ele e a filha trabalhavam na Revigrés, patrocinador oficial do FC Porto; que havia jantado na 5ª feira anterior na "Taverna do Infante", restaurante detido por Reinaldo Teles; que, anos antes, num Águeda-Académica decisivo para a subida à 1ª Divisão (derrota por 1-0 no último minuto), havia sido um dos primeiros adeptos locais a invadir o campo para abraçar os jogadores aguedenses após o golo.
Verdadeiras ou não, o certo é que correram pela cidade. Alguém que sabia o número de telefone do árbitro fê-lo passar para outros adeptos. Durante uma semana, o referido número circulou pelas faculdades e vários telefonemas ameaçadores "choveram" em casa do árbitro. Mais tarde, este, em entrevista a "A Bola", confessou que teve de sair de casa e que andara escondido durante vários dias. Uma ou duas épocas depois, na sequência da sua despromoção à segunda categoria, abandonaria a arbitragem.



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