Definir como HomePage   Contador de Visitas   RSS do Blog






  - Domingo, Junho 24, 2007

A "desbrasileirização" da Briosa


Se há algo que a política de contratações para esta época mostra é a opção por aquilo que podemos chamar uma forte "desbrasileirização" do plantel da Académica.

Se recuarmos até ao início da época de 2005/2006, verificamos que a Briosa dispunha de 13 jogadores brasileiros: Pedro Silva, Danilo, Hugo Alcântara, Ezequias, Lira, Roberto Brum, Dionattan, Zada, Luciano, Gelson, Fernando, Joeano e Marcel. Para além destes, havia apenas mais um estrangeiro: o espanhol Dani, guarda-redes suplente.

Entretanto, em Janeiro, esse número reduziu-se em uma unidade: Marcel transferiu-se para o Benfica e Lira foi emprestado a um clube do Brasil. Por sua vez, entraram Serjão e o senegalês Ousmane N'Doye.

Em contrapartida, os portugueses eram apenas 10: Pedro Roma, Nuno Luís, Zé Castro, Vítor Vinha, Andrade, Sarmento, Paulo Adriano, Nuno Piloto, Filipe Teixeira e Eduardo (terceiro guarda-redes). Na 2ª "volta", foram chamados os ex-juniores Rui Miguel e Ito, mas pouco foram utilizados.

Esta política de contratações acabou por ter efeitos bastante perniciosos. Por um lado, porque a equipa perdeu referências; por outro, porque gerou, naturalmente, a existência de dois grupos no balneário: o dos brasileiros e o dos nacionais. Mais tarde, e ao que sabemos, verificou-se uma divisão entre os jogadores do "país irmão", ao que parece por motivos religiosos.

Face a esta situação, o treinador Nelo Vingada perdeu o controlo do balneário,que acabou, assim, por se transformar num verdadeiro "saco de gatos". Algo que a incrível derrota na Amadora pôs a nu e que explica, em grande parte, as dificuldades que tivemos para garantir a permanência.

Consciente dos problemas ocorridos na época anterior, os dirigentes academistas, com o apoio do novo técnico Manuel Machado procuraram diversificar um pouco mais as nacionalidades do plantel. Mas, apesar de tudo, continuaram a privilegiar o mercado brasileiro.

Apesar de tudo, no começo da passada temporada, embora a maior parte dos jogadores fosse estrangeira, os portugueses já dispunham da maioria relativa, com 11 elementos. Eram eles: Pedro Roma, Eduardo, Nuno Luís, Litos, Medeiros, Vítor Vinha, Sarmento, Nuno Piloto, Miguel Pedro, Filipe Teixeira e Hélder Barbosa. Na 2ª "volta", juntou-se a estes o jovem Sílvio, que vinha actuando no Tourizense.

Por seu turno, eram nove os futebolistas brasileiros ao serviço da Briosa: Douglas, Káká, Danilo, Lino, Paulo Sérgio, Alexandre, Roberto Brum, Dionattan e Gelson. Para além destes, encontravam-se mais dois sul-americanos: o colombiano Nestor Alvarez e o argentino Estevez (que cedo regressou ao seu país).

Contudo, em Janeiro, com a saída de Dionattan, os regressos de Lira e Joeano e o empréstimo de Cláudio "Pitbull" aumentou para 11 o número de atletas "made in Brasil".

Ao mesmo tempo, surgiam três jogadores europeus (o sérvio Pavlovic, o húngaro Gyano e o turco Sonkaya) e um africano (o senegalês Dame N'Doye, que substituira o seu irmão).

Apesar de Manuel Machado ser um treinador mais disciplinador que Nelo Vingada, a verdade é que o ambiente no balneário nem sempre foi o melhor, o que, mais uma vez, se reflectiu no rendimento da equipa dentro das quatro linhas. Por isso, como condição para renovar o contrato, o técnico terá colocado como condição ter uma palavra decisiva na constituição do plantel.

Daí a autêntica "limpeza do balneário" a que se procedeu e que atingiu, de sobremaneira, os jogadores oriundos da América do Sul.
.
Ao invés, têm sido contratados atletas nacionais, na sua maioria jovens, alguns dos quais provenientes dos escalões inferiores do nosso futebol.
.
Assim, dos 20 jogadores já confirmados ou com hipóteses de continuar na época de 2007/2008, temos 14 portugueses: Pedro Roma, Ricardo, Rui Nereu, Pedrinho, Pedro Costa, Sarmento, Litos, Orlando, Vítor Vinha, Cris, Licá, Nuno Piloto, Miguel Pedro e Filipe Teixeira. A estes poderão somar-se os dois emprestados pelo FC Porto, integrados no "pacote" da transferência de Lino (Hélder Barbosa e Ivanildo serão os desejados, embora nenhum deles esteja certo). Há ainda o caboverdiano Lito, há muitos anos no nosso país, e que há muito se encontra apalavrado.
.
Quanto a estrangeiros propriamente ditos, três são europeus (Gyano, Pavlovic e o austríaco Markus Berger), aos quais se poderá juntar mais um ponta-de-lança.
.
Em contrapartida, há apenas dois brasileiros: Káká e Paulo Sérgio. A estes, poderá juntar-se Joeano, se for possível chegar a acordo com o Beitar de Jerusalém.
.
Parece-me haver aqui um "arrepiar caminho" por parte da direcção, que terá percebido que a insistência nos mercados sul-americanos não conduzia aos resultados que todos desejamos.
.
Note-se que nada tenho contra o Brasil e os brasileiros nem contra a América Latina. Antes pelo contrário, tenho até uma grande simpatia por essa região do Mundo e pelos seus povos. Aliás, para mim, os bons jogadores não têm nacionalidade.
.
Porém, face à imensidão do seu território, da sua população e de jogadores nem sempre é fácil distinguir "o trigo do joio". É frequente empresários pouco escrupulosos mostraram vídeos onde jogadores medíocres "comem a bola" e marcam golos espectaculares a dirigentes pouco esclarecidos, acabando estes por cair na esparrela e contratá-los. Infelizmente, parece que foi assim que se operaram algumas das contratações da Briosa nas últimas épocas.
.
Mas, mesmo que assim não seja, nem sempre a adaptação dos futebolistas é fácil: o futebol da América Latina é mais técnico, menos táctico e menos físico, mais lento, as marcações são menos apertadas, o volume de treino é menor. Isto para além de alguns não conseguirem superar as saudades provocadas pela distância e pela mudança de hábitos, cultura e clima. Daí que alguns bons jogadores dos campeonatos sul-americanos falhem rotundamente na Europa.
.
Por fim, sempre achei pouco saudável a presença, na mesma equipa, de um grande número de estrangeiros da mesma nacionalidade. Como referi acima, estes tendem, naturalmente, a formar um grupo à parte, com todas as consequências negativas que isso provoca ao nível do balneário.
.
Daí que tenha alguma esperança nesta nova "revolução no plantel", dirigida pelo técnico Manuel Machado, com a prestimosa colaboração do director desportivo Luís Agostinho e o apoio do presidente José Eduardo Simões. Agora, que ninguém se iluda: a construção de uma equipa demora tempo e os resultados poderão não aparecer logo no início. Por isso, julgo que aquilo a que poderemos aspirar é à realização de um campeonato tranquilo, de um lugar no meio da tabela. Só por ignorência ou má fé se pode exigir a qualificação para uma competição europeia.
.
Por fim, penso que é essencial apostar mais na formação, dando oportunidades aos jogadores saídos das nossas camadas jovens. Claro que alguns ainda estarão demasiado "verdes" para jogar na nossa Liga principal e será preferível colocá-los a "rodar" no Tourizense. Mas será que não haverá nenhum que possa ser integrado no plantel da Briosa? Vejam o exemplo do Sporting, com os resultados que se conhecem.