Aceite o repto para falar do futebol da “sua” Académica, aqui se transcrevem as passagens mais importantes da agradável conversa que o Semanário Desportivo do Centro travou com Francisco Andrade, uma das maiores referências do clube. A constituição do plantel sénior e a ténue ligação com a formação, foram algumas das preocupações levantadas. “Não há muito tempo a Académica teve na equipa principal nove jogadores das suas camadas jovens”, recordou.
Semanário Desportivo do Centro (SDC) - Como tem acompanhado a preparação da nova época da Académica?Francisco Andrade (FA) - Vejocomalgumapreocupação a saída de alguns elementos que, na época transacta, eram considerados chave. Mas desconheço, e isso é bom que se diga, quais foram os critérios e se as opções tomadas seguem um programa e um projecto de técnico. Se assim é e se realmente foi feito um estudo por parte do treinador e se as alterações verificadas foram feitas nessa sequência, está correcto. Estou convicto que a Académica aprendeu no ano anterior, quando tinha ideias de fazer um campeonato a redundar nas competições europeias mas acabou por estar em risco de descer de divisão. Isto no ano mais fácil de manter a equipa na Liga, uma vez que só houve dois despromovidos. Estou convencido que este ano isso não vai acontecer e que os reforços foram contratados com consciência técnica e atendendo à realidade do clube e às suas características sociais e desportivas.
SDC - No ano passado era opinião quase unânime que a equipa tinha excesso de jogadores estrangeiros…FA - Isso faz-me lembrar as “lojas dos trezentos”. Quando se compra por comprar as coisas nunca dão certas. É preferível apostar no mercado português, tal e qual como parece que a Académica está agora a fazer. Para isso é preciso fazer uma prospecção muito séria, procurar e sinalizar determinados jogadores e depois acompanhá-los, sabendo quais são as suas características específicas em várias áreas, por exemplo desportiva e social. E apostar neles. Continuo a dizer que há em todas as divisões jogadores que têm características para serem jogadores da Académica e para serem verdadeiros reforços. preciso é que o clube tenha alguém com vivência prática do futebol e que saiba ser “olheiro”. Porque não é “olheiro” quem quer e não é qualquer um, só porque deu dois pontapés na bola, que descobre jogadores. Havendo um trabalho sério nesta área, com toda a certeza que se descobrem no país muitos jovens que podem ser reforços da equipa. Não quer isto dizer que não se aposte num ou outro jovem jogador estrangeiro, até porque hoje o mercado europeu assim o permite. O que não se pode, de maneira nenhuma, é formar uma equipa como uma “manta de retalhos” de vários países porque, assim, quando o balneário se consegue finalmente conhecer já está a época acabada.
SDC - Não lhe parece encerrar alguma contradição ter-se apontado o número elevado de reforços como um dos motivos dos maus resultados, porque o conjunto tardou em solidificar-se, e no final da época se tenha operado nova “revolução” no plantel?FA - Essa é outra falácia. Agora usa-se muito dizer que se compra jogadores novos para serem formados. Fazer jogadores é na formação. Aí sim, preciso fazer uma aposta séria e profissional, sem fazer imitações. Quando falo em profissional tem ver com os métodos que se utilizam. Porque Académica já é profissional de fora para dentro, falta-lhe ser profissional de dentro para fora. Quando se diz que se vai buscar jovens e depois, no ano seguinte, alguns até com contrato de dois anos vão embora, é sinal de que a dita aposta não passa de uma falácia e apenas mais uma maneira de iludir quem rodeia a Académica. No actual contexto, falar em aposta não passa de uma frase feita sem qualquer sentido.
SDC - No seu entender, como olham hoje os adeptos da Académica para a equipa principal de futebol?FA - A Académica tem que respeitar muito o seu passado, sem cair em saudosismos. E não há dúvida que o adepto da Académica fica um pouco baralhado quando a maioria dos jogadores lhe diz muito pouco. Mas também acontece, e isso não é muito bom, que o adepto da Académica já está quase vacinado e apenas à espera que a equipa ganhe. Já perdeu um pouco o interesse por outras coisas e outros valores que eram fundamentais há muito pouco tempo. Os sustos que têm apanhado fazem com que os adeptos perdoem muita coisa e queiram apenas que a equipa se salve. E quando assim é “perdoa-se o mal que sabe pelo bem que faz”. Mas se me perguntar seriamente, acho que o adepto da Académica continua a desejar que o clube seja um pouco do que era antigamente, adaptado ao moderno, mas sem perder as características de um clube “sui generis” como era a Associação Académica de Coimbra.
SDC - A manutenção dos valores próprios da Académica não é um trabalho dos dirigentes?
FA - Os exemplos vêm de cima, em tudo. Hoje há muitos adeptos da Académica que se divorciaram dos problemas académicos e não aceitam certas filosofias e certas atitudes. Mas quem gravita à volta do centro de poder da Académica são pessoas que estão mais enraizadas aos resultados do que à herança da “velha” Académica. E por isso perdoam muita coisa e, às vezes, comparam-se a outros clubes. Nós temos que competir com eles, é certo, mas era bom que não perdêssemos o fio umbilical aos valores que fazem a diferença entre a Académica e todos os outros clubes do mundo.
Aposta na formação
SDC - No plantel da Académica 2007/2008 há apenas um jogador que ascendeu dos Juniores. É pouco?FA - É muito pouco! Lembro que não há muito tempo a Académica teve na equipa principal nove jogadores das suas camadas jovens. Tive uma grata recordação, há dias, ao reunir com os jogadores que estiveram presentes nas duas finais do Campeonato Nacional de Juniores. Hoje estão todos bem na vida. Falámos sobre os tempos em que a Académica ganhava aos ‘grandes’ e conseguia fazer chegar quatro, cinco, seis jogadores à equipa principal. Poderão dizer que eram outros tempos. Pois eram. Eram tempos em que a equipa principal da Académica se batia com as melhores equipas, num campeonato que era tão ou mais difícil em relação ao de hoje. Era tão difícil que um treinador que estivesse três jogos seguidos sem ganhar era despedido. Mas digo mais: continuo a não aceitar que a Académica não faça tudo o que pode no aspecto da formação.
SDC - Mas as más condições de trabalho que hoje são oferecidas aos treinadores da formação da Académica não obstam à realização de um melhor trabalho?FA - Eu não culpo os técnicos, não culpo quem trabalha. Culpo é todo o projecto. Quando as camadas jovens são praticamente abandonadas e se espera que sejam os pais dos jogadores a resolver os problemas que deveriam ser resolvidos pelo clube, a única coisa que se pode esperar é que a valia dos jogadores acaba por ser imposta através da capacidade dos pais. E isso é muito mau. Se quer olhar verdadeiramente para as camadas jovens, a Académica tem que fazer uma aposta profissional, em termos de métodos, para que os jogadores formados no clube possam jogar ao mais alto nível. Um clube de 3.ª Divisão tem obrigação de formar jogadores para a 3.ª Divisão; um clube como a Académica tem obrigação de fazer jogadores para o campeonato que está a disputar. Por conseguinte a exigência tem de ser igual àquela que existe no Benfica, no Sporting e no Porto.
SDC - O novo complexo do Bolão, concluído a breve prazo, pode ajudar a que a formação da Académica dê o desejado salto qualitativo? FA - Deve ajudar! A Académica sempre teve um défice muito grande em termos de condições de trabalho. No passado esse défice foi muitas vezes ultrapassado com muito querer, muita determinação, muita carolice, mas os tempos de hoje são outros, de facto, e a Académica precisa da tal profissionalização interna, na qual uma das áreas é encontrar condições de trabalho para que os jogadores possam crescer e evoluir.
SDC - E pode ser revitalizado o estatuto de jogador/estudante? No seu entender, continua a fazer sentido nos dias de hoje?FA - Continua a fazer sentido, mas sem querermos enganar-nos em relação à possibilidade, que havia antigamente, de a equipa da Académica ser formada apenas por jogadores estudantes. Hoje continua a ser possível encontrar muitos jovens com capacidade para jogar na Académica e fazerem os seus estudos aqui em Coimbra, mas não sou contra a aquisição de jogadores profissionais, até para que seja feita a simbiose perfeita entre aqueles que procuram a Académica para a continuação dos seus estudos e aqueles que apenas querem jogar futebol.
Grupo dos últimos
SDC- A esta distância, como perspectiva o próximo campeonato da BwinLiga?FA - Estou convencido que a classificação da Liga vai ser dividida em três grupos. Um primeiro onde vou incluir o Braga, além naturalmente de Porto, Sporting e Benfica; depois um grupo intermédio, onde me parece que vai aparecer o Guimarães e talvez o Paços Ferreira; finalmente um último grupo onde estão todas as outras equipas, incluindo a Académica e a Naval.
SDC-O sonho europeu, muito fala do no início da época passada, é possível no actual contexto da Académica?FA - Tudo é possível no futebol. Mas quando se assume que se vai ter um sonho europeu e depois não se desce de divisão por pouco, leva-nos a pensar que o melhor é ter-se os pés bem assentes e construir uma equipa que dê aos adeptos e ao futebol uma valia técnica e uma capacidade de jogo que traga aos campos aqueles que se afastaram deles. Uma coisa é ir aos campos solidário com a Académica, dando-lhe apoio para que consiga um resultado positivo mas sem esperança de ver um bom jogo, e outra coisa é ir para um jogo de futebol na esperança de ver um bom espectáculo e na certeza de que com esse bom espectáculo também se podem somar pontos.
SDC - Na época que terminou os adeptos foram muito pacientes em relação à onda de maus resultados verificados em Coimbra…
FA - Eu venho a dizer, de há uns tempos a esta parte, que já não conheço os adeptos da Académica. Há dez ou quinze anos era impensável a Académica estar cerca de três meses sem ganhar um jogo em casa. Era impensável, fosse qual fosse o treinador. Nem que fosse o maior do mundo. E não estou a dizer que quero “chicotadas”, que não resolvem nada. O que quero dizer é que hoje as pessoas estão adormecidas. É um problema da sociedade, que parece andar narcotizada, anestesiada. Acabo por ter que felicitar a Direcção pela maneira como aguentou o barco, tendo em conta aquilo que a equipa da Académica fez na época passada, ao mesmo tempo que me interrogo em relação ao que se passa com os sócios da Académica e sobre o que terá feito alterar a sua maneira de pensar. Estes sintomas de adormecimento preocupam-me porque pode muito bem estar a perder-se a vitalidade e a entrega ao clube que sempre foram características dos adeptos da Académica.
SDC - E os estudantes universitários, continuam ao lado da equipa da Académica?
FA - Continuar continuam. Só que antigamente os estudantes vibravam com os bons resultados da Académica mas também vibravam com um bom jogo, mesmo perdendo. Muitas vezes, apesar da derrota, saber que a equipa da Académica foi a que melhor futebol praticou dava um grande gozo aos estudantes e enchia-lhes o ego. Agora o que me parece é que também eles já estão na onda de que o que interessa são os três pontos, venham eles de onde vierem…
SDC - Que mensagem gostaria de deixar para todos os academistas?FA - Gostava muito que a Académica não se envergonhasse do passado, não tivesse compleção xos com os homens do passado do clube e que procurasse no futuro ser um pouco do que foi ao longo dos anos, adaptada ao momento actual.
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