A continuidade de Manuel Machado: prós e contras
Depois de um período de férias na Europa Central e nas praias da Normandia, voltei a Portugal uns dias após o jogo de Alvalade. Contudo, para descansar um pouco, preferi prolongar a interrupção da actividade bloguística até ao final de Agosto, excepção feita à crónica do encontro com a U.Leiria.Apesar de tudo, fui procurando seguir, com um mínimo de atenção, o que de essencial se ia passando no seio da nossa Briosa.
.Ora, neste meu regresso em pleno à blogosfera académica, verifico que estamos confrontados com uma das habituais mini-crises de resultados, que coloca o técnico Manuel Machado sob pressão. Como se pode verificar por muitos comentários postados em vários blogues, muitos adeptos (entre os quais alguns dos meus colegas editores) defendem a saída imediata do treinador. Mas será essa a melhor forma de dar a volta à situação?
.Se, logo a seguir a uma derrota, é natural que alguns ânimos se exaltem, agora, mais a frio, é tempo de reflectirmos, de forma serena e ponderada, sobre essa questão, essencialmente colocando algumas interrogações.
.Analisemos, então, os resultados, que todos consideramos negativos.
Assim, a derrota em Alvalade é natural e, pelo que ouvi, os números são algo enganadores. Frente à U.Leiria, a atitude de Litos condicionou a equipa, além de que, em Coimbra, nunca ganhámos aos leirienses em jogos a contar para o Campeonato principal. Na Madeira, está certo que fomos incapazes de aproveitar os 83 minutos que estivemos em superioridade numérica, mas há que atender ao facto de termos defrontado um Marítimo que, este ano, possui um excelente plantel e vai, seguramente, lutar pelos lugares cimeiros da classificação.
O único desfecho claramente anormal foi a derrota em Fátima, que ditou a nossa eliminação da nóvel Taça da Liga. Mas a verdade é que as provas a eliminar, ainda por cima numa só "mão", vivem destas surpresas: quem não se lembra do FCPorto-Atlético da última edição da Taça de Portugal? E o certo é que quatro dos oito participantes da BwinLiga foram afastados por adversários da Vitalis.
Claro que a questão não está apenas nestes desaires. O problema é que, por um lado, as exibições não convencem; por outro, vêm na sequência de um final da época passada com prestações igualmente pouco felizes. E é um facto que, em jogos oficiais disputados no ECC, no ano de 2007, não ganhámos nenhum jogo e apenas marcámos dois golos, ambos de "penalty". Residirá, então, o problema no comando técnico?
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Em primeiro lugar, há que atender ao currículo de Manuel Machado. Foi campeão nacional de juniores com o V.Guimarães. Entretanto, saiu e levou para o Fafe alguns dos seus pupilos, acabando por subir os fafenses à 2ª Divisão B. Depois, colocou o Moreirense na Liga principal e, apesar do reduzido orçamento, aí manteve o clube durante dois anos (no último dos quais terminou na 1ª metade da tabela). Voltou a Guimarães, onde, depois de um começo algo "tremido", levou o Vitória à Taça UEFA. Proeza que repetiu no ano seguinte na Madeira, à frente do Nacional. Será que não serve para a Académica?
.Penso que o problema não estará tanto no técnico mas na política de contratações levada a efeito nas últimas temporadas, em especial na anterior. Aí, verificou-se a entrada de 16 novos futebolistas, maioritariamente com recurso ao mercado sul-americano, em especial brasileiro. Ora, para além da dificuldade em formar uma equipa e dos inconvenientes de ter muitos elementos "made in Brasil", uma grande parte desses atletas mostrou não ter a qualidade suficiente para alinhar na prova principal do futebol nacional. Daí que tivéssemos uma equipa desequilibrada, onde apenas se salvava o meio-campo. A defesa era um verdadeiro "susto" (foi a 2ª pior da Liga) e o ataque uma perfeita nulidade, especialmente após a lesão de Hélder Barbosa. Por isso, mesmo descontando a debilidade do Aves e os problemas directivos e financeiros de Beira Mar e V. Setúbal, acho que termos garantido a manutenção na penúltima jornada já não foi mau de todo. A agravar a situação, muitos desses elementos foram excessivamente caros e as contas da instituição entraram "no vermelho", obrigando à redução do orçamento.
.Face a essa realidade, a Direcção "emendou a mão" e promoveu uma autêntica "limpeza do balneário", que se traduziu numa nova "revolução no plantel". Assim, mais uma vez, voltaram a ser contratados mais 16 jogadores, em grande parte jovens. O número de brasileiros da equipa desceu para três, a que se juntam dois uruguaios, dois marfinenses, mais outros três africanos e três da Europa Central, naquilo que nos parece uma saudável diversificação das proveniências. Mas as limitações orçamentais não permitiram grandes aventuras.
.E o certo é que, mais uma vez, o técnico tem de voltar a construir uma equipa quase a partir do zero. O que, como todos sabemos, não é fácil. Por isso, com três jogos já realizados na Liga, ainda anda a experimentar jogadores em diferentes posições. Pela mesma razão, é difícil à equipa apresentar os automatismos que são a base para a construção de um fio de jogo coerente e eficiente. Daí que, quando Manuel Machado pede tempo e paciência, tem razão. O problema é que os sócios e adeptos da Briosa já estão fartos de esperar e a impaciência vai-se apoderando de todos. Mas, pergunto: seria outro treinador do mesmo nível capaz de "queimar" etapas? Tenho fortes dúvidas.
A verdade é esta: enquanto não conseguimos estabilizar minimamente o plantel de uma época para a outra não vamos a lado nenhum. Seja quem for o treinador!
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Queremos com isto dizer que o técnico está isento de culpas? Com certeza que não, pois entendo que Manuel Machado tem cometido alguns erros.
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Em primeiro lugar, ao nível da comunicação. O actual treinador da Briosa não é uma figura simpática, que crie grande empatia com a massa associativa. Pela minha parte, não acho que isso seja necessariamente um defeito. Para o "parlapiê" e o "pepsodent" já basta a maioria da nossa classe política. Por outro lado, prefiro um bom profissional, discreto mas trabalhador, do que um técnico com muita "laracha" e que passe a vida a "dar corda" aos adeptos no CC. Como dizem os brasileiros, "cada macaco no seu galho".
O problema está no discurso, não só muito defensivo, mas também quase sempre vago, a roçar o "lapalissiano", do estilo "vamos trabalhar para conseguir o melhor resultado possível" ou, após uma derrota, "cometemos alguns erros, que vamos tentar corrigir". Hoje em dia, uma boa estratégia comunicacional é meio caminho andado para o êxito. E, aí, MM tem falhado rotundamente.
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Outra questão prende-se com as concepções técnico-tácticas e a viabilidade da sua aplicação aos jogadores que tem ao seu dispor.
Manuel Machado é um técnico que entende que uma equipa deve estar preparada para jogar em qualquer sistema, sendo que este poderá variar em função do adversário e das condições do jogo. Assim, já vimos a equipa a jogar em 4-2-3-1, 4-3-3, 4-4-2 (clássico ou em losango) e 3-5-2. Por vezes, o sistema é alterado frequentemente no decurso do encontro, algo que levou o comentador Luís Freitas Lobo a falar de um "camaleão táctico".
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Teoricamente, a ideia parece correcta. Mas será que se aplica às características do plantel? Um exemplo é o jogo da Taça, em Alvalade, na época passada.
Ao contrário de MM, Paulo Bento é fiel a um sistema: o 4-4-2 em losango, apostando mais em dois pontas-de-lança no interior da área e menos nos flancos. Assim, o 3-5-2, povoando mais o centro da defesa, parece um bom antídoto para contrariar o sistema "leonino". Mas, para isso, necessita de defensores rápidos, capazes de fechar as alas quando necessário. Ora, com Litos e Danilo, que se caracterizam pela lentidão, os resultados foram os que se conhecem.
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Por outro lado, estando a equipa em construção, ainda sem os automatismos necessários a uma boa articulação do conjunto, não seria preferível dar alguma estabilidade táctica ao plantel? É certo que não passo de um simples "treinador de bancada" mas pergunto: não será tanto sistema "muita areia para a camioneta" da maioria dos jogadores?
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Por fim, aquela que me parece a questão essencial, quiçá decisiva para a continuidade de Manuel Machado: a relação entre o técnico e os seus comandados.
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Tenho lido alguns comentários falando de indisciplina no seio da equipa. Pela minha parte, não possuo quaisquer dados que me permitam confirmar ou infirmar essas opiniões. Mas estranho um pouco, pois sempre tive de Manuel Machado a ideia de um treinador disciplinador.
Aquilo que sei é que N'Doye protagonizou alguns casos que revelam uma violação reiterada dos seus deveres profissionais, mas aí estamos em presença de um jogador que procura chantagear o clube para forçar a sua saída. Algo que, obviamente, ultrapassa, em muito, o técnico. Não me parece que possamos "tomar a nuvem por Juno". Agora, se existem outras situações, o caso "muda de figura"...
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Mas, quando falo neste ponto, a questão que coloco é esta: estão os jogadores com o treinador? Acreditam nele? A sua mensagem passa para o grupo?
MM esteve mal quando disse que "o Orlando foi o único elemento do plantel de minha escolha pessoal". No fundo, procurou "sacudir" alguma responsabilidade pelos resultados, mas o certo é que essa afirmação pode ter sido interpretada como um voto de desconfiança ao plantel.
A verdade é que a falta de reacção da equipa após o 2º golo do Marítimo me deixou algo preocupado relativamente à saúde psicológica do conjunto. Mas podemos estar apenas em presença de um dia mau.
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Julgo que este último ponto é essencial para a (não) continuidade de Manuel Machado. Se os jogadores estiverem com ele, a sua substituição não se justifica; caso contrário, teremos de recorrer a (mais) uma "chicotada psicológica".
Claro que há outros pressupostos a considerar, que vão desde as questões financeiras (e todos sabemos que a situação da Briosa não é boa e que uma rescisão tem custos elevados) às alternativas disponíveis. É que "para melhor está bem, está bem; para pior, já basta assim".



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