Académica: Passado, presente e futuro (III): da "mudança de sexo" ao "regresso a casa"
F) De 1974 a 1984
Em 25 de Abril de 1974, o país reconquista a liberdade. É o tempo de todas as esperanças, que alimentam as mais variadas utopias e delírios revolucionários. As diferentes opções políticas confrontam-se com virulência e, por vezes, o poder parece cair na rua: estamos em pleno PREC (Processo Revolucionário em Curso), que durará até 25 de Novembro de 1975. É também o tempo do fim da guerra colonial e da descolonização.
A partir daí, assiste-se a uma progressiva normalização e ao início da consolidação do novo regime democrático. Simultaneamente, emerge o poder local e os seus novos eleitos. É ainda concedido um estatuto de autonomia aos Açores e à Madeira.
A Revolução ocasiona grandes transformações na economia e na sociedade portuguesas: são reconhecidos os direitos laborais e assiste-se ao acesso das grandes massas ao Ensino Superior, à generalização dos cuidados de saúde, à valorização do papel social da mulher, entre outras.
Por seu turno, o retorno dos portugueses das ex-colónias e de alguns emigrantes e exilados políticos faz aumentar o crescimento urbano, na maioria dos casos de forma caótica e desordenada. Aumenta enormemente o número de automóveis.
A televisão abrange quase todos os lares e, em 1981, começam as emissões a cores.
As transformações económicas deixam marcas nas grandes unidades industriais do sul do país, mas poupam as pequenas e médias indústrias do Norte, região que ganha protagonismo. Entretanto, cresce o sector terciário, fruto do aumento dos serviços públicos e do crescimento dos sectores da educação e da saúde.
Coimbra é uma das cidades onde mais se afirma essa terciarização do tecido económico. A cidade continua a expandir-se, graças ao êxodo rural, mas começa a sofrer a concorrência de outros centros urbanos da região (casos de Aveiro, Leiria e Viseu), que crescem muito rapidamente. Começa a ser posto em causa o seu título (até então incontestado) de “capital do Centro”.
Entretanto, fase à “explosão escolar” verificada, abrem novas universidades públicas (Évora, Algarve, UTAD, UBI, Açores, Madeira) e alguns politécnicos, enquanto que a Católica multiplica os seus pólos. A Universidade de Coimbra vê reduzir-se a sua área de influência e vai perdendo a aura. Começa, progressivamente, a ser encarada apenas como uma entre várias, apesar de ver crescer exponencialmente o número de estudantes (mais de 10 mil, em meados dos anos 80). Entre estes, é cada vez maior o número de raparigas.
A democratização da sociedade atinge também o futebol: a “lei da opção”, que prendia o jogador ao clube, é abolida, instituindo-se a liberdade contratual. Ao mesmo tempo, o profissionalismo alastra às divisões inferiores.
Por seu turno, a televisão começa a transmitir alguns jogos de futebol, que, para não colidir com os restantes, passam a realizar-se ao sábado. Porém, os encontros principais ainda não são objecto de transmissão televisiva e continuam a realizar-se ao domingo.
Em termos desportivos, o FC Porto começa a pôr em causa o domínio dos dois “grandes” lisboetas, algo que é a parte mais visível de um processo de deslocação para norte do “centro de gravidade” do futebol português. Assim, enquanto o Boavista, o V.Guimarães e, a espaços, o Braga surgem a disputar os lugares cimeiros, clubes históricos do sul definham (casos de Belenenses e V.Setúbal) ou caem no anonimato das divisões inferiores (como o Barreirense, a CUF e o Atlético). Algo que se deve, em grande parte, às convulsões do PREC, que afectaram bastante o tecido económico da região de Lisboa. É neste período que as equipas insulares passam a participar nos Campeonatos Nacionais.
Na Academia de Coimbra, a Revolução tem o efeito de um furacão. Sob pressão da extrema-esquerda revolucionária, a nova Direcção-Geral da AAC, afecta ao PCP, propõe à Assembleia Magna, em Junho de 1974, a extinção da secção de futebol, sob o pretexto de que esta se desviara dos princípios do amadorismo que deviam ser apanágio da Briosa. A aprovação da proposta deixa a maioria dos adeptos academistas em “estado de choque”.
A solução encontrada é a criação do Clube Académico de Coimbra, que, após uma dramática batalha jurídica, consegue ser reconhecido pelos órgãos federativos como herdeiro da Académica e do seu lugar na 1ª Divisão. Solidárias com o futebol, as secções de basquetebol e de natação aderem à nova colectividade.
Face às novas circunstâncias, o CAC assume o profissionalismo, embora afirme privilegiar o jogador-estudante. Uma ambiguidade que traduz clivagens internas e que é causa e consequência de uma crise de identidade, latente já no final dos anos 60, e que, agora, se manifesta de forma nua e crua. Em consequência dessa opção, os seus futebolistas passam a ter o estatuto de profissionais e deixam de ser, obrigatoriamente, estudantes. No final dos anos 70, surgem os primeiros brasileiros na equipa.
Por isso, se a operação de “mudança de sexo” evita a morte, deixa sequelas profundas. O novo clube (com sede nos Arcos do Jardim) não suscita a mesma adesão e simpatia da “velha” Académica, inclusive entre muitos academistas de sempre. Um número significativo de conimbricenses afasta-se e assume-se como adepto de um dos três “grandes”. A ligação à Academia vai-se perdendo. Fora de Coimbra, passa a ser visto como um clube igual aos outros, por vezes mesmo entre antigos estudantes: desaparece o “perfume” da Briosa.
Para piorar a situação, com excepção de um 5º lugar em 1976/77 (quando perde a qualificação para a Taça UEFA na última jornada), os resultados desportivos do CAC não são brilhantes. A equipa desce de divisão em 1978/79, sobe dificilmente no ano seguinte e volta a ser despromovida na época imediata. Apenas regressa em 1983/84, após três anos de permanência no escalão secundário, algo que nunca antes sucedera.
Simultaneamente, o crescimento económico de algumas cidades vizinhas traduz-se também na subida de rendimento dos seus clubes mais representativos. Assim, Beira Mar, União de Leiria e Académico de Viseu vão somando algumas presenças na divisão principal, colocando em causa a hegemonia regional do emblema conimbricense. Já em Coimbra, o União vai sobrevivendo no escalão secundário e não consegue capitalizar o descontentamento crescente face ao novo emblema, mantendo apenas a sua base de apoio tradicional.
Por seu turno, a saída da Académica origina dificuldades ao nível das condições de treino, pois a utilização do “Santa Cruz” e do “Universitário” passa a ser paga. O valor crescente dos ordenados dos atletas, a par com a diminuição do número de sócios pagantes e das receitas dos jogos, agrava a situação financeira da colectividade, cujo passivo vai aumentando. Ao mesmo tempo, as dissensões internas sucedem-se.
Entretanto, a turbulência política na AAC abranda. O PCP e a extrema-esquerda, que dominam a DG desde o 25 de Abril, cedem, a partir de 1979, o lugar a estudantes afectos ao PSD ou ao PS. São repostas a “Queima das Fitas” e outras tradições académicas, suspensas desde a crise de 1969, quando foi decretado o "luto académico".
Com o apoio de algumas figuras do “bloco central” ligadas a Coimbra, começam a criar-se condições para o regresso à “casa-mãe”, visto como a solução para resolver os problemas do clube e recuperar a mística perdida. Uma doce ilusão que o tempo se encarregará de desmentir!
Em 25 de Abril de 1974, o país reconquista a liberdade. É o tempo de todas as esperanças, que alimentam as mais variadas utopias e delírios revolucionários. As diferentes opções políticas confrontam-se com virulência e, por vezes, o poder parece cair na rua: estamos em pleno PREC (Processo Revolucionário em Curso), que durará até 25 de Novembro de 1975. É também o tempo do fim da guerra colonial e da descolonização.
A partir daí, assiste-se a uma progressiva normalização e ao início da consolidação do novo regime democrático. Simultaneamente, emerge o poder local e os seus novos eleitos. É ainda concedido um estatuto de autonomia aos Açores e à Madeira.
A Revolução ocasiona grandes transformações na economia e na sociedade portuguesas: são reconhecidos os direitos laborais e assiste-se ao acesso das grandes massas ao Ensino Superior, à generalização dos cuidados de saúde, à valorização do papel social da mulher, entre outras.
Por seu turno, o retorno dos portugueses das ex-colónias e de alguns emigrantes e exilados políticos faz aumentar o crescimento urbano, na maioria dos casos de forma caótica e desordenada. Aumenta enormemente o número de automóveis.
A televisão abrange quase todos os lares e, em 1981, começam as emissões a cores.
As transformações económicas deixam marcas nas grandes unidades industriais do sul do país, mas poupam as pequenas e médias indústrias do Norte, região que ganha protagonismo. Entretanto, cresce o sector terciário, fruto do aumento dos serviços públicos e do crescimento dos sectores da educação e da saúde.
Coimbra é uma das cidades onde mais se afirma essa terciarização do tecido económico. A cidade continua a expandir-se, graças ao êxodo rural, mas começa a sofrer a concorrência de outros centros urbanos da região (casos de Aveiro, Leiria e Viseu), que crescem muito rapidamente. Começa a ser posto em causa o seu título (até então incontestado) de “capital do Centro”.
Entretanto, fase à “explosão escolar” verificada, abrem novas universidades públicas (Évora, Algarve, UTAD, UBI, Açores, Madeira) e alguns politécnicos, enquanto que a Católica multiplica os seus pólos. A Universidade de Coimbra vê reduzir-se a sua área de influência e vai perdendo a aura. Começa, progressivamente, a ser encarada apenas como uma entre várias, apesar de ver crescer exponencialmente o número de estudantes (mais de 10 mil, em meados dos anos 80). Entre estes, é cada vez maior o número de raparigas.
A democratização da sociedade atinge também o futebol: a “lei da opção”, que prendia o jogador ao clube, é abolida, instituindo-se a liberdade contratual. Ao mesmo tempo, o profissionalismo alastra às divisões inferiores.
Por seu turno, a televisão começa a transmitir alguns jogos de futebol, que, para não colidir com os restantes, passam a realizar-se ao sábado. Porém, os encontros principais ainda não são objecto de transmissão televisiva e continuam a realizar-se ao domingo.
Em termos desportivos, o FC Porto começa a pôr em causa o domínio dos dois “grandes” lisboetas, algo que é a parte mais visível de um processo de deslocação para norte do “centro de gravidade” do futebol português. Assim, enquanto o Boavista, o V.Guimarães e, a espaços, o Braga surgem a disputar os lugares cimeiros, clubes históricos do sul definham (casos de Belenenses e V.Setúbal) ou caem no anonimato das divisões inferiores (como o Barreirense, a CUF e o Atlético). Algo que se deve, em grande parte, às convulsões do PREC, que afectaram bastante o tecido económico da região de Lisboa. É neste período que as equipas insulares passam a participar nos Campeonatos Nacionais.
Na Academia de Coimbra, a Revolução tem o efeito de um furacão. Sob pressão da extrema-esquerda revolucionária, a nova Direcção-Geral da AAC, afecta ao PCP, propõe à Assembleia Magna, em Junho de 1974, a extinção da secção de futebol, sob o pretexto de que esta se desviara dos princípios do amadorismo que deviam ser apanágio da Briosa. A aprovação da proposta deixa a maioria dos adeptos academistas em “estado de choque”.
A solução encontrada é a criação do Clube Académico de Coimbra, que, após uma dramática batalha jurídica, consegue ser reconhecido pelos órgãos federativos como herdeiro da Académica e do seu lugar na 1ª Divisão. Solidárias com o futebol, as secções de basquetebol e de natação aderem à nova colectividade.
Face às novas circunstâncias, o CAC assume o profissionalismo, embora afirme privilegiar o jogador-estudante. Uma ambiguidade que traduz clivagens internas e que é causa e consequência de uma crise de identidade, latente já no final dos anos 60, e que, agora, se manifesta de forma nua e crua. Em consequência dessa opção, os seus futebolistas passam a ter o estatuto de profissionais e deixam de ser, obrigatoriamente, estudantes. No final dos anos 70, surgem os primeiros brasileiros na equipa.
Por isso, se a operação de “mudança de sexo” evita a morte, deixa sequelas profundas. O novo clube (com sede nos Arcos do Jardim) não suscita a mesma adesão e simpatia da “velha” Académica, inclusive entre muitos academistas de sempre. Um número significativo de conimbricenses afasta-se e assume-se como adepto de um dos três “grandes”. A ligação à Academia vai-se perdendo. Fora de Coimbra, passa a ser visto como um clube igual aos outros, por vezes mesmo entre antigos estudantes: desaparece o “perfume” da Briosa.
Para piorar a situação, com excepção de um 5º lugar em 1976/77 (quando perde a qualificação para a Taça UEFA na última jornada), os resultados desportivos do CAC não são brilhantes. A equipa desce de divisão em 1978/79, sobe dificilmente no ano seguinte e volta a ser despromovida na época imediata. Apenas regressa em 1983/84, após três anos de permanência no escalão secundário, algo que nunca antes sucedera.
Simultaneamente, o crescimento económico de algumas cidades vizinhas traduz-se também na subida de rendimento dos seus clubes mais representativos. Assim, Beira Mar, União de Leiria e Académico de Viseu vão somando algumas presenças na divisão principal, colocando em causa a hegemonia regional do emblema conimbricense. Já em Coimbra, o União vai sobrevivendo no escalão secundário e não consegue capitalizar o descontentamento crescente face ao novo emblema, mantendo apenas a sua base de apoio tradicional.
Por seu turno, a saída da Académica origina dificuldades ao nível das condições de treino, pois a utilização do “Santa Cruz” e do “Universitário” passa a ser paga. O valor crescente dos ordenados dos atletas, a par com a diminuição do número de sócios pagantes e das receitas dos jogos, agrava a situação financeira da colectividade, cujo passivo vai aumentando. Ao mesmo tempo, as dissensões internas sucedem-se.
Entretanto, a turbulência política na AAC abranda. O PCP e a extrema-esquerda, que dominam a DG desde o 25 de Abril, cedem, a partir de 1979, o lugar a estudantes afectos ao PSD ou ao PS. São repostas a “Queima das Fitas” e outras tradições académicas, suspensas desde a crise de 1969, quando foi decretado o "luto académico".
Com o apoio de algumas figuras do “bloco central” ligadas a Coimbra, começam a criar-se condições para o regresso à “casa-mãe”, visto como a solução para resolver os problemas do clube e recuperar a mística perdida. Uma doce ilusão que o tempo se encarregará de desmentir!



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