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  - Segunda-feira, Março 24, 2008

Porque é que a oposição não capitaliza o descontentamento?

Entramos, esta semana, na campanha eleitoral para as eleições dos corpos gerentes da Académica/OAF, que, como é do conhecimento geral, se realizam no próximo dia 14 de Abril.
Também sabemos que, ao acto eleitoral, concorrem duas listas para cada órgão a eleger: uma afecta ao actual presidente, José Eduardo Simões, que se recandidata (a lista A), e outra proposta pelos seus oponentes, encabeçada por João Francisco Campos para a Direcção, mas com letras diferentes consoante o órgão a que se candidatam (as listas B, C, D e E).

Neste "post", procurarei fazer uma espécie de ponto da situação em ambos os campos.

Assim, no que se refere ao actual presidente, a sua equipa surge bastante remoçada: apenas Luís Godinho continua como efectivo da Direcção. A sua estratégia passa por salientar os pontos positivos do seu mandato e esconder os negativos.

Entre os primeiros, destacamos: a manutenção da equipa principal, durante seis anos consecutivos na Liga maior do futebol nacional, algo que não sucedia desde os anos 70; a conclusão da Academia "Dolce Vita", que melhorou, enormemente, as condições de trabalho das equipas de futebol; o acordo com a TBZ, bem como o ter conseguido um bom conjunto de patrocinadores, o que permitiu maior folga na tesouraria e, consequentemente, acabar com os salários em atraso crónicos; a renovação da frota de autocarros; a melhoria da organização interna do clube e a "blindagem" da Direcção e do balneário, impedindo que tudo se soubesse cá fora quase instantaneamente.

Relativamente aos segundos, salientamos: a equipa principal não conseguiu dar o salto qualitativo (época após época, a manutenção tem sido conseguida com enorme sofrimento); a política de aquisições foi errática e sem critério, tendo sido contratados muitos jogadores nacionais e, sobretudo, estrangeiros sem qualidade e a preços elevados (só este ano foi, de alguma forma, "corrigido o tiro"), o que provocou um alarmante aumento do passivo da instituição; alguns negócios pouco claros e mal explicados (como o de Marcel), a par com actuações pouco dignas (de que o "caso Dame" é exemplo eloquente); a lentidão no processo de aquisição do edifício dos Arcos do Jardim; o "divórcio" em relação à cidade e à Academia e, por fim, os problemas judiciais que envolvem o presidente e se reflectem na imagem da instituição.

Temos, assim, um balanço ambíguo, que depende muito da perspectiva e da sensibilidade de quem analise o mandato da Direcção que agora cessa funções.

Apesar disso, não erraremos muito se dissermos que, para a maioria dos sócios da Briosa, o mandato de José Eduardo Simões ficou aquém das expectativas criadas quando da sua eleição.

Contudo, o actual presidente é o grande favorito à vitória no próximo acto eleitoral e, muito provavelmente, por uma larga maioria. A que se deve, então, este aparente paradoxo?

Fundamentalmente, à sucessão de erros crassos cometidos, desde o início, pela oposição declarada a JES. Quais foram, então, as falhas estratégicas dos oposicionistas?

Em primeiro lugar, nunca se demarcaram da gestão de Campos Coroa, de má recordação para grande número de associados. Ao invés, procuraram sempre justificar os episódios de triste memória que levaram à sua queda, como os vários meses de salários em atraso, os cheques sem cobertura ou o amadorismo da gestão.

Ao mesmo tempo, optaram por uma estratégia de "bota-abaixismo" permanente, que acabou por retirar impacto e credibilidade às críticas, mesmo quando pertinentes e fundamentadas.

Por outro lado, a adopção de um estilo arrogante e, por vezes, agressivo contra todos os que não concordavam com as suas teses (por exemplo, "vocês não são da Académica", "não sabem o que é a Académica"), a par com um discurso eivado de algum elitismo (tipo "nós, estudantes e/ou doutores, vocês futricas"), foi determinante para alienar o apoio de alguns sectores mais moderados, que, apesar de descontentes com JES, rejeitam qualquer espécie de regresso ao passado e não partilham do fundamentalismo ideológico desse sector da oposição.

Pior ainda foi o processo que levou à escolha do candidato. Vejamos, então, os principais protagonistas da "novela":

O primeiro a declarar a sua disponibilidade foi Luís Santarino. Corajoso, insubmisso, opositor desde a primeira hora, defronta-se, porém, com a imagem de "enfant terrible" de que não conseguiu descolar totalmente. Os "notáveis" "torcem o nariz" e os apoios não surgem. A partir de determinada altura, resta-lhe "marcar território" e lutar por uma saída airosa.

Uma alternativa aceite por grande parte da oposição seria Álvaro Amaro. Mas o actual autarca de Gouveia cometeu dois erros "de palmatória": esteve quase três anos sem pagar quotas e, depois, escreveu à Direcção a pedir um estatuto de excepção. Florentino, JES "assassinou" a sua putativa candidatura em plena AG.

Mas o grande desejado era José Belo. Antigo jogador e presidente do Núcleo de Veteranos, com imagem de homem sério, seria um candidato forte, pese embora alguma ausência de carisma e um discurso muito voltado para o passado. Mas a verdade é que sempre pareceu mais "empurrado" que entusiasmado com a ideia de concorrer. Nunca deu mostras de querer avançar...e não avançou.

Surgiu, então, Maló de Abreu. Derrotado por JES nas últimas eleições, desejava a desforra. Sempre "a correr em pista própria", era mal visto em vários sectores oposicionistas. Contudo, ao assumir a candidatura, impôs-se a toda a oposição, que se resignou a apoiá-lo para não dividir os votos anti-"jesistas" (recordo que o sistema eleitoral da Briosa é maioritário a uma volta). Porém, cedo se viu que não tinha um projecto consistente. Os "outdoors" que espalhou pela cidade com dizeres como "Académica magnífica" ou "Académica amada" eram o sintoma dessa vacuidade. Prevendo uma derrota por maior margem que em 2003, abdicou quatro dias antes do fim do prazo para entrega de listas, com uma desculpa "esfarrada", deixando os seus apoiantes "com a criança nos braços".

Não querendo deixar o actual presidente sozinho "em campo", mas sem tempo para preparar um projecto consistente, a estes só lhes restou encontrar uma solução de recurso.

Assim, para a Direcção, surge uma lista encabeçada por João Francisco Campos, ex-presidente da Mancha Negra, constituída na sua totalidade por jovens, alguns deles também com ligações à claque, sendo que dois deles vêm directamente do actual elenco directivo. Metaforicamente, quando os seniores não estão disponíveis, recorre-se aos juniores.

Por seu turno, apenas para os outros órgãos surgem listas encabeçadas e constituídas por "notáveis" (onde se destacam o próprio Campos Coroa e outros elementos da sua direcção, como Fernando Pompeu e José Eduardo Ferraz).

Apesar de aparecerem com letras diferentes (um mero "truque eleitoral" de eficácia mais que duvidosa), na prática trata-se de uma única lista.

Esta tem, quanto a mim, dois grandes problemas de credibilidade.

O primeiro é a excessiva juventude de todos os candidatos ao principal órgão decisor (e não apenas do João Francisco, que me parece até um grande académico e alguém com bom conhecimento da vida da instituição). Não penso que a presença de uma Direcção maioritariamente jovem seja, necessariamente, negativa. Pelo contrário, até poderia representar uma "lufada de ar fresco". Agora, julgo que era fundamental a presença de dois ou três elementos com mais experiência e a garantia de serem capazes de arranjar os apoios financeiros necessários à sobrevivência da Académica.

O segundo é a presença, nas listas para os outros órgãos, de muita gente ligada ao período "coroísta", que ganhou demasiados "anti-corpos" em grande número de associados. É que, em política, há associações que, em lugar de somar, subtraem. Na minha opinião, mais valia o candidato oposicionista ter-se rodeado de outras pessoas, eventualmente com menos nome mas mais consensuais. Talvez não chegasse para ganhar, mas julgo que os resultados seriam melhores.

Estas são, como é óbvio, as minhas opiniões pessoais, numa altura em que a campanha ainda não começou. E, como ainda faltam mais três semanas até às eleições, muito se pode alterar até lá. O futuro o dirá!