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  - Segunda-feira, Junho 02, 2008

A falsa questão do custo zero

"O Maurício só me interessa se for a custo zero, e o Hugo Leal podia vir também a custo zero porque está em final de contrato, mas quem podia vir mesmo era o Mateus do Boavista que como eles não têm dinheiro vem praticamente a custo zero! Para além disso fazia-se regressar o Brum que foi dispensado e também vinha a custo zero”.

São estas algumas das palavras facilmente ouvidas a cada vez que se fala de defeso e novas contratações para a Académica. No entanto, é importante reflectir no que realmente se gasta no aparente custo zero e na ideia tantas vezes repetidas de que se deve entrar neste tipo de contratações.

É certo que quando contratado em final de contrato, poupa-se o equivalente ao que seriam normalmente muitos meses de salário de um jogador, mas há sempre o outro lado que nestas alturas não se considera. É então importante reflectir em coisas como “porque é que o Barcelona comprou uma estrela mundial como o Henry por 8 milhões de Euros e o Valência precisou de 10 para ir buscar o Manuel Fernandes ao Benfica? Porque é que se vende tão caro de Portugal para o estrangeiro? Ou da América para a Europa por exemplo? Porque é que o Manchester vem a Portugal comprar e dá 55 milhões de Euros em dois dias? Porque é que Jorge Ribeiro mesmo com provas dadas (e a suposto custo zero) só conseguiu clube em Portugal quase a fecharem os prazos de inscrição no inicio da temporada?

A resposta está então na falsa questão do custo zero (a não ser que alguém ache que Jorge Ribeiro é o pior lateral esquerdo da liga e Manuel Fernandes tenha mais qualidade que Henry). Peguemos então neste segundo caso em que ambos assinaram por quatro anos. Quando se pensa em contratar Henry, não se conta com 8 milhões a pagar por quatro anos de prestação de serviços. Pensa-se sim em 8 milhões de entrada, mais 6 milhões de Euros/época, que no final desses quatro anos dará a pequena fortuna de 32 milhões, bem diferente dos oito iniciais. Já no caso de Manuel Fernandes, o valor de ordenados descerá para pouco mais de metade do rendimento/época. Assim, 22 Milhões de Euros para Manuel Fernandes jogar durante quatro épocas… sobram 10 milhões, dá por exemplo para ter durante um ano Cristiano Ronaldo a ganhar um ordenado. Um extra apetecível para qualquer equipa com certeza.

É então altura de passar à realidade da Académica. Pensar em porque é que foi possível pagar o passe de P. Castro e não foi contratar Jorge Ribeiro a custo zero na época passada. Porque é que Roberto Brum foi melhor sair a custo zero do que ficar mais uma época. A questão é quase sempre a mesma, a conta global do que custará realmente um jogador no final das épocas que vai representar o clube.

Imagine-se que Carlos Fernandes está de saída do Braga e que com a Académica estão mais três clubes a concorrer pelo defesa. Imagine-se também, que na segunda divisão há um clube com quem a Académica também tenta negociar mas que a sua equipa não o vende por menos de 200 mil euros (o preço de Miguel Pedro há dois anos por exemplo). Carlos Fernandes, já por si ganhando normalmente mais 3 mil euros/mês do que o seu colega da liga de honra, tem ainda 3 clubes que na acesa luta pelo seu concurso por ser…a custo zero. Nesta disputa, facilmente o preço dispara dos 3 mil para os 6/7 mil de diferença. Façamos agora contas. Carlos Fernandes por três anos (duração normal de contrato) vai custar 7 mil * 13 meses * 3 anos, ou seja, 273 mil euros, mais 70 mil euros do que custaria o lateral da Liga de Honra pelo qual a Académica teria pago 200 mil euros. Mais uma vez, numa época, com 70 mil euros, teríamos tido Jorge Ribeiro em vez de Pablo Castro por exemplo…e mais umas coisas. É um pormenor que pode decidir entre o sucesso (ou não) de uma época.

Para além disso, o custo zero limita claramente a margem de manobra (como se viu pela qualidade de reforços do Sporting nos últimos anos) e faz com que os preços subam pelas leis normais da concorrência directa e pelo interesse que um jogador nesta situação suscita sempre nos emblemas mais próximos.

Nesta opinião, ignorou-se no entanto a questão dos prémios de assinatura sempre maiores nestas situações (quem não se ouviu falar dos mais de 100 mil contos que João Pinto recebeu quando assinou pelo Sporting?) e dos prémios associados aos ordenados dos jogadores.

Não querendo dizer que se trate sempre de uma politica errada ou sempre certa, serve este artigo apenas para tentar reflectir sobre a falsa questão que poderá ser o mercado do custo zero e as contrapartidas escondidas que à primeira vista não se distinguem. Veja-se o exemplo do Sporting mais uma vez, que depois de épocas em que foi essa a palavra de ordem, já abandonou a politica, não parecendo ser por excesso de bons resultados.

Questões que só quem gere directamente um clube saberá ponderar e analisar da maneira correcta, não quem está por fora.

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