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  - Quarta-feira, Novembro 26, 2008

A táctica é que está mal

Um dia, por excesso de competência, Domingos convenceu os adeptos de que não errava, tal era a ousadia com que enfrentava os jogos e a qualidade do futebol que apresentava. Um excesso de competência levou a que não só obtivesse um resultado histórico no estádio da luz mas também fosse vencer à choupana, empatasse com o Sporting, estivesse um ano sem perder em casa, entre outros. Para acumular, começou a pré-época a empatar com o Espanhol de Barcelona e a vencer contra adversários como o Nacional, Leiria e Beira-Mar no Torneio Légea. Brilhante? Talvez não, mas quase…

A culpa de Domingos

Domingos Paciência é assumidamente adepto do 4x4x2, gosta de jogar com avançados móveis, médios interiores, sem extremos e preferencialmente com um criativo a distribuir jogo. Banalidade à moda de um Rui Santos certamente. Ultimamente, temos vindo a discutir se será este o esquema indicado, se Domingos deveria apostar em Carlos Aguiar como o único organizador que tem, embora não sendo nitidamente uma mais valia, se entre Cleber e Edson qual seria o menos mau para ocupar a vaga na lateral esquerda, se Berger não seria um central mais seguro do que Luiz Nunes, se Peskovic será a solução ideal para suceder a Pedro Roma, e para quando a emersão de Madej para confirmar as indicações que trazia na altura da sua contratação.

Os reforços da Académica desde 2004/2005.

Recue-se então no tempo. Estamos agora no inicio da época 2004/2005. João Carlos Pereira esta época pode continuar o trabalho que fez na época passada e dar a estabilidade que não houve ainda. Para dar uma alternativa a Nuno Luís veio Bruno Leite, lateral campeão do mundo sub-17, só por aí a qualidade tem de existir. Depois, na frente, o extremo esquerdo que faltava! Rafael Gaúcho, um jogador perto do genial, tem pormenores brilhantes, fintas fantásticas e ainda junta a isso uma grande qualidade para bater livres. Pode jogar tanto ao centro como na esquerda diz-se. Saiu Lucas é certo, mas em compensação entrou o campeão olímpico Clement Beaud, Wilton Soares e Bruno Reis (quem?). Para o ataque, para compensar as lesões de Joeano e Dário no inicio da temporada vem Kenny Cooper, nada mais, nada menos do que um jogador da equipa B do Man United. Há por onde duvidar da qualidade desta equipa?

Os anos seguintes

Não, vamos antes para 2005/2006. Afinal é agora! O Nelo Vingada pode continuar o trabalho do ano passado. Para o lugar do José António vem o Hugo Alcântara que era “só” a estrela do Setúbal. Para o lugar do Dário, o Brum disse que tinha um amigo dele que estava disposto a vir jogar para a Académica, está a jogar no Malmo mas aceita vir para cá, fantástico. Gelson de seu nome. Por fim, para o lugar do Hugo Leal temos este ano o Zada. Um jogador com um currículo enorme no Brasil, com a experiência que tem, facilita até a integração, não há por onde falhar!


Não, talvez seja mais fácil falar no ano seguinte. Sem mais demoras. Contrataram-se Sonkaya, Medeiros, Alexandre, Gyano, Raul Estevez e Nestor Alvarez. Um defesa direito cotado, um central pelo qual andámos a penar todo o ano, um trinco que muito deixou a desejar, Gyano… e dois avançados de currículo que juntos marcaram um golo.

No ano a seguir? Ainda hoje me custa a perceber como se pedem emprestados dois jogadores exactamente para a mesma posição e se deixam outras por preencher. Ivanildo e Helder Barbosa por razões compreensíveis não jogaram juntos um único jogo. Depois, e quando faltavam 3 jogadores de qualidade para fechar aquele que seria o melhor plantel dos últimos anos, contratou-se Pablo Castro para a esquerda, Horacio Peralta para organizador e Vouho para a linha da frente já ao cair do prazo para inscrições.

4 anos, 21 contratações desastrosas!

E chegamos a este ano… Luis Aguiar disse que tinha um irmão, contratou-se. Para além dele também Madej, Cleber ou Luiz Nunes serão recordados daqui a algum tempo tal como são hoje Bruno Leite, Wilton, Bruno Reis, Rafael Gaúcho, Kenny Cooper, Hugo Alcantara, Douglas, Lira, Fernando, Gelson, Zada, Sonkaya, Medeiros, Alexandre, Gyano, Estevez, Nestor Alvarez, Ivanildo(que não está em causa a qualidade mas a contratação em si), Pablo Castro, Peralta e Vouho. Quem se responsabiliza por 21 péssimas contratações em 4 anos (sem incluir dados desta época ainda), à média de mais de 5 contratações desastrosas por época?

Todos os anos, 25% do plantel é constituído por maus jogadores

Valerá a pena discutir tácticas quando os recursos são gastos em contratações não avaliadas? Será preciso dizer que 5,25 jogadores por época correspondem a cerca de 25% de um plantel e que foi essa, mais do que tácticas do Prof. Machado, posturas defensivas do tempo de Nelo Vingada ou do losango de Domingos que impediram que outros voos pudessem ser alcançados?

E se…

Vale então a pena pensar na gravidade do que se passa todos os anos na Académica. Jogadores como Ricardo Fernandes, Rafael Gaúcho, Fernando, Pitbull ou N’doye entre outros, são jogadores de qualidade reconhecida e dos quais se ficou a pensar que poderiam ter dado algo mais. À excepção de um ou outro provaram a sua qualidade noutras paragens. Pergunta-se então se não teriam tido outro rendimento numa equipa onde tivessem as “costas quentes”? E para isso bastaria um plantel minimamente equilibrado em todos os sectores, onde N’Doye pudesse ser sempre um médio ofensivo e não fosse obrigado a encostar à esquerda para colmatar lacunas. Onde não fosse preciso prender Pitbull a extremo direito ou Rafael Gaúcho na esquerda, onde existisse nos respectivos anos uma única alternativa a Fernando ou Ricardo Fernandes (quer um quer o outro eram praticamente soluções únicas para o lugar), será que hoje não falaríamos destes jogadores com mais saudade?

Para reforçar o facto, há a ter em atenção algumas das razões do sucesso dos clubes que nos últimos anos têm feito boas temporadas. Atente-se no Leixões desta época.
Que contratações? De onde? Avaliadas por quem?
O exemplo Leixões, Braga e Belenenses .

À falta de um lateral esquerdo, não foi "Kleberson Gaúcho" o escolhido, nem sequer um jogador do outro lado do Atlântico que ninguém conhece. A escolha foi para um “desconhecido” chamado Laranjeiro, que inclusivamente já tinha sido falado como potencial reforço da Académica, mas em Coimbra a escolha passou por Cleber. Para a direita, com a saída de Filipe Oliveira, os homens do mar quiseram contratar Vasco Fernandes, um internacional sub-21 português que faz com que os 4 da defesa do Leixões, sem serem jogadores excepcionais, têm qualidade suficiente para jogar a bom nível na primeira liga, e repito, sem nenhum deles ser um jogador ao nível de Fucile, Maxi Pereira ou Polga por exemplo, nem sequer perto disso. Em Coimbra, a escolha para a defesa foi o dvd de um ex Boca-Juniors Luiz Nunes.

Mais casos existiriam, como fossem as contratações de Zé Manuel, um trintão que ainda faz jogar, Wesley, um craque que esteve livre até final da época de transferência, Braga, descoberto no Leça, para além de opções de segunda linha como Paulo Tavares(Estoril), Diogo Luís(Beira-Mar), Serginho Baiano, um velho conhecido, entre outros.

Outros casos existiriam. Os Braga's do tempo de Jesualdo Ferreira, em que da baliza ao ataque, 90% das contratações eram feitas de jogadores encontrados a jogar em Portugal ou em caso extremo, sempre devidamente analisadas (Madrid ou Cesinha), ou o Belenenses de Jorge Jesus que foi enfraquecido na época em que contratou jogadores de origem duvidosa.

Falta de um director desportivo

Será então uma verdade ‘La Palice’ que a qualidade das contratações é decisiva para os resultados de uma equipa. Para isso, há que haver alguém que assegure que a Académica saiba o que está a comprar quando o faz, que assegure um pequeno gabinete de prospecção, que até pode não ter mais do que uma ou duas pessoas, mas que comece a preparar a temporada seguinte a partir de Setembro, nunca em Julho. João Carlos Pereira ou Vítor Manuel seriam nomes aparentemente consensuais por exemplo.

Tal como num plantel de uma equipa, também numa estrutura interna de um departamento de futebol, é fundamental ter um profissional de qualidade e experiente, para cada funçao que ocupa, e a quem sejam exigidas responsabilidades.

As despesas de um gabinete de prospecção

No entanto, percebo que um clube como a Académica não tenha facilidades financeiras que permitam a criação de um departamento de prospecção com desafogo de verbas. No entanto, há a fazer uma estimativa do que custaram os vinte e um jogadores já referidos em quatro temporadas. Sabe-se que por exemplo Zada, tinha um vencimento na ordem dos 15 mil euros, ou que Fernando, Raul Estevez, Alvarez ou Peralta rondavam os 10 mil, mas vamos estimar que em média teriam um vencimento de 6 mil euros/mês. São em média, ao longo destes quatro anos, 25 mil euros/mês completamente esbanjados em Coimbra. Isto, estimando com bases baixas. Uma despesa destas, comportaria um gabinete de prospecção ao nível de poucos ou nenhuns clubes em Portugal. Valerá a pena?

Se não vale, quem se responsabiliza por tantos jogadores mal contratados e planteis desequilibrados? No meio de tudo isto, ainda vale a pena discutir se Domingos p. ex. aposta em Carlos Aguiar, Luiz Nunes, no 4x3x3 ou 4x4x2?

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